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1984, de George Orwell, e o mundo de hoje

06/10/2015


*O texto tem spoilers.

Os melhores livros são aqueles que, para além de terem uma boa história, têm uma boa mensagem (pelo menos na minha humilde concepção). É o caso de 1984, cujo conceito é bem conhecido, mesmo para quem não leu o livro.

Orwell, neste livro, projecta um Estado totalitário, opressor e coercivo, que vigia permanentemente os seus cidadãos, de maneira a descobrir possíveis traições (através de, somente, expressões faciais, gestos involuntários, etc.). Tudo o que uma pessoa faz é visto, tudo o que uma pessoa diz é ouvido, todas as suas acções são controladas.

Big Brother is watching you, é o lema desta história: o Grande Irmão está a vigiar-te. Há várias interpretações sobre o tipo de livro que 1984 é e qual a sua mensagem, mas creio que o principal a reter do livro é o controlo que um Estado pode ter sobre os seus cidadãos, independentemente do seu regime político (um Estado democrático pode fazê-lo e muitas pessoas apontariam os EUA como exemplo disto).

O livro narra a história de Winston Smith, de como ele tentou revoltar-se contra o regime e de como depois foi apanhado e convertido. Tendo como trabalho a falsificação (rectificação) dos factos em jornais, Smith apercebe-se da farsa que é o Partido (o único do regime), não sendo de admirar o seu descontentamento.

Smith tem um caso com Julia, uma colega sua, e os dois tentam conspirar contra o Partido, contando para isso com a ajuda de O’Brien. Acontece que O’Brien é membro do Partido e acaba por “tratar” do casal.

No tempo em que Winston Smith esteve detido, foi-lhe feita uma “lavagem cerebral”, sendo obrigado a aceitar e a acreditar no Partido, o mesmo acontecendo com Julia. A história acaba assim, com Winston Smith a levar uma vida normal e a ser uma máquina em vez de um ser humano com capacidade para questionar, apenas sabendo que um dia, por ter tentado conspirar contra o Partido, irá ser morto.

Sátira política, distopia, alegoria… As classificações para 1984 ainda são algumas, mas o objectivo de Orwell foi tornar os leitores conscientes, de maneira a evitar que a situação descrita no livro se torne real – porque mais vale prevenir que remediar (e num mundo como 1984, não haveria remédio possível).

A questão que qualquer pessoa coloca ao ler o livro é se, actualmente, estamos a viver num mundo (muito ou pouco) parecido com o de 1984. Talvez. Os nossos telemóveis podem ser facilmente localizados, os nossos computadores podem ser facilmente invadidos, as nossas conversas telefónicas podem ser facilmente ouvidas por terceiros, as grandes capitais europeias têm câmaras de vigilância nas suas ruas… Contudo, há grandes diferenças que distinguem 1984 de 2015.

Sobre o preconceito literário

20/09/2015

Uma livrara em Madrid. Imagem encontrada no Tumblr.
Não acredito em dogmas literários que nos dizem o que é boa literatura ou não. Acredito, sim, na liberdade de cada um, materializada no facto de se poder gostar ou não dos livros que bem entender.

Neste sentido, não tem lógica afirmar que se deveria ler certo autor em detrimento de outro – pois aplica-se o princípio de que cada leitor lê o que quer, pois cada leitor é livre e, supõe-se, tem pensamento próprio.

Todavia, existe um outro princípio que se deveria considerar nesta complicada equação: nem tudo o que tem a forma de um livro é necessariamente bom para o nosso intelecto – querendo isto dizer, por palavras não tão rudes nem tão amargas, que há livros maus (que diferem de leitor para leitor).

O conceito de mau livro é notoriamente subjetivo por incontáveis razões, sendo a principal o facto de esse conceito estar dependente do conceito de má literatura que tem cada um de nós.

Posto isto, chega-se à conclusão que o preconceito literário é um preconceito infundado, atendendo ao princípio da liberdade de cada um ler o que quiser ler, mas inevitável, tal como acontece fora destas questões de cariz intelectual.

Eu própria me sinto mais inteligente que algumas certas pessoas apenas por ler Dostoiévski (por exemplo), ao contrário dessas mesmas pessoas e, porventura, essas pessoas poderão pensar que eu não passo de uma simples jovem que pretende ser culta, mas que não o é.

Um outro exemplo é que eu não considero dignas (!) as pessoas que não leem o que eu leio – sendo que o que eu leio é considerado por mim, obviamente, como o suprassumo da intelectualidade a que uma pessoa pode aspirar.

Eu sou bastante devota do princípio da liberdade, mas a verdade é que olho com desdém quem lê livros que eu considero como maus livros – um paradoxo que reside em mim desde que comecei a afinar (entenda-se: requintar) os meus gostos literários.

Em suma, o preconceito literário não tem uma razão fundamentada para existir, a não ser alimentar o nosso ego, fazendo-nos acreditar que somos verdadeiramente sábios – e isso, em princípio, não deverá trazer qualquer mal ao mundo.

*Texto escrito de acordo com o Acordo Ortográfico de 1990.

Nada mais, nada menos

20/09/2014


Filme: Eu sou mais popular.
Livro: Eu sou melhor. E cheiro muito bem.
Imagem daqui.

João Botelho realizou um filme que é nada mais, nada menos que a adaptação de Os Maias, de Eça de Queirós. Numa pequena entrevista ao Jornal de Notícias, do passado dia 11, o realizador afirma o seguinte:

Cheguei a um ponto da minha vida em que percebi o meu ponto de vista. O ponto de vista é o meu. O mesmo texto, nas tuas mãos, é filmado de outra maneira.

Creio que esta é uma coisa importante de perceber. Cada livro está sujeito à interpretação do leitor, que é devida aos mais variados factores: quem faz um filme baseado num livro, tem a sua interpretação do mesmo, podendo o filme ser bastante fiel ao livro ou não, podendo também a sua classificação de “bom” ou “mau” depender da experiência de leitura dos espectadores.

Se cada pessoa tem a sua interpretação do livro, poderemos classificar um filme apenas como sendo fiel ou não ao livro? Deveremos somente considerar o ponto de vista em que o filme foi feito ou o nosso próprio ponto de vista? Independentemente da classificação que lhe dermos, um filme não passa de um ponto de vista interpretativo do livro. João Botelho disse ainda na entrevista:

[…] as pessoas pensam muito em realismo, quando pensam em cinema. Eu penso sempre numa certa distância. O cinema permite-me uma coisa de que gosto muito, a elipse. Espero que as pessoas, depois de verem o filme, vão para casa preencher os buracos que faltam.

Em suma, um livro nunca poderá ser inteiramente adaptado ao cinema, no sentido de haver no filme tudo o que há no livro. O conceito do filme, então, passa a ser relevante (e não apenas o filme em si). E se uma pessoa depois de ver um filme tiver vontade de ler o livro, ou relê-lo, o filme foi bem conseguido.

Talvez o mesmo nunca acontecesse se um filme fosse unicamente uma cópia imagética do livro – o que me leva à conclusão que literatura e cinema não são totalmente opostos e diferentes, sendo antes artes complementares.

*Estas considerações não invalidam que haja filmes baseados em livros que sejam maus, independentemente do seu conceito.

2013 revisitado e perspectivas para 2014

05/01/2014

Imagem encontrada no Book Riot.
Feliz 2014 para os leitores! Mais um ano que passou, mais livros que foram lidos e mais livros que ficaram por ler - aliás, o nosso destino é sempre o mesmo, morreremos sem ler todos os livros que queremos ler. É normal, nos blogues deste género (e de qualquer outro), e nesta época, fazer-se uma review do ano que passou, quanto mais não seja para se saber a quantas andamos.

Livros lidos: foram 26, mais concretamente 26 e meio, porque a outra metade ficou para ser lida neste mês de Janeiro. Há quem leia cerca de 50 livros por ano, há quem leia 100, há mesmo até quem leia, milagrosamente, mais de 150.

Normalmente, leio cerca de 30 livros por ano (mais coisa, menos coisa), pelas mais variadas razões: uma delas, porque leio num ritmo normal, parando sempre que me apetece para sublinhar, fazer anotações e reflectir sobre o que lá está escrito, por vezes passando mais tempo a pensar do que a ler. Aliás, eu tenho a convicção de que um livro, para além de ser lido, deve ser apreciado.

Em 2013 li alguns livros que estavam em lista de espera, parte deles uns cartapácios de centenas de páginas, para além de ler imensos artigos sobre as matérias que estudei. Aqui, enfim, apenas entram na conta os livros que leio por prazer, porque os que leio por obrigação académica não valem a pena ser referidos (mais uma vez, tendo em conta a teoria de que o livro deve ser apreciado).

Livros preferidos:
  • Contos Escolhidos de Guy de Maupassant: Como o nome dá a entender, é um pequeno conjunto de contos de Maupassant. Na sinopse do livro está escrito que “esta recolha procura dar a conhecer aos leitores portugueses a maravilha que é a prosa deste grande escritor do século XIX”. É preciso haver indivíduos com este tipo de boa vontade que ponham as pessoas a ler alguma coisa de jeito (recensão aqui).
  • Correspondência, de Eça de Queirós (vol. I e II): como o título indica, é o conjunto da correspondência profissional e pessoal do autor. São dois volumes muito bem conseguidos, estando as cartas organizadas cronologicamente. Tem notas e artigos pertinentes do coordenador dos volumes, Alfredo Campos Matos.
  • Dez Mil Milhões, de Stephen Emmott: um livro que explica, em termos científicos e claros, os problemas do sobrepovoamento (recensão em breve).
  • História de Duas Cidades, de Charles Dickens: um dos melhores livros do autor, que explora os problemas sociais vividos antes e durante a Revolução Francesa através de uma história de amor e de vingança (recensão em breve).
  • Húmus, de Raul Brandão: húmus, segundo o dicionário de língua portuguesa, é a «camada superior do solo, composta especialmente de matéria vegetal decomposta ou em decomposição». Neste livro, de cariz existencialista, a premissa é a de que a vida não passa de húmus, superficial e em decomposição – uma coisa insignificante, sem importância. Em suma, é um livro que procura qual o significado da nossa existência (recensão em breve).
  • O Homem Duplicado, de José Saramago: inquietante seria, talvez, um adejectivo correcto para descrever a história de um homem que perde a essência do seu ser ao descobrir um outro homem em tudo igual a si: um perfeito duplicado, uma obra magistral da natureza (recensão aqui).
  • Os Demónios, de Dostoiévski: o livro retrata as acções de um grupo revolucionário que tenciona mudar o sistema e tomar o poder, sendo necessário, para o efeito, a união e a confiança que os membros do grupo têm entre si. A determinada altura, essa união é posta à prova através do assassinato de um dos membros desse grupo (que queria sair). A questão do livro é precisamente essa: o quão longe vai o ser humano na perseguição dos seus ideais?, quanto mal se pode fazer para atingir o bem? (recensão aqui)
  • Os mortos mandam, de Vicente Blasco Ibañez: uma história de amor que gira à volta da premissa de que os preconceitos (criados pelos que já estão mortos há bastante tempo) mandam na nossa existência, controlam os nossos actos, vigiam os nossos pensamentos. Mas será realmente assim? (recensão aqui)
  • Todos Os Nomes, de José Saramago: em poucas palavras, este é um livro que relata a história de um funcionário da Conservatória Geral do Registo Civil que procura obstinadamente uma mulher que nunca viu na vida, conhecendo apenas o que consta no verbete do seu registo - que, acidentalmente, foi parar às mãos do Sr. José, o dito funcionário (recensão aqui).

Perspectivas para 2014: não é de meu costume planificar leituras para o ano inteiro (apenas fiz isso uma vez, mas confesso que os resultados não foram maus), até porque prefiro conjugar o tamanho e a dificuldade dos livros com o tempo que tenho disponível. De qualquer maneira, traço planos de leitura superficiais, que mais não são do que a minha intenção de ler este ou aquele livro.

Tomei duas resoluções literárias para este ano novo. Uma delas, é não comprar livros até Maio. A outra, passa por ler, finalmente, Guerra e Paz, de Tolstoi (que tenho em lista de espera há uns bons anos). Se eu conseguir cumprir estes objectivos - e acredito que o consiga fazer - posso dar-me por contente, e o resto será bónus.

Depois de algumas pesquisas, deparei-me com alguns desafios literários que me parecem ser bem interessantes (mas dos quais não irei fazer parte porque, enfim, não sou de planificar leituras nem de ler por obrigação). Sugiro dois (as páginas são em inglês):
  • Russian Literature 2014: um desafio com vários níveis, que passa por, precisamente, ler algum autor russo ou então ler uma história que se passa na Rússia.
  • The 2014 TBR Pile Challenge: um desafio que consiste em ler, pelo menos, 12 livros que estão em lista de espera há mais de um ano. Óptimo para quem quer "despachar" essas leituras em atraso.

Sobre o Acordo Ortográfico...

15/09/2013

...que tem gerado enésimas polémicas, contestação e mentes revoltadas.

Imagem daqui.
No decorrer dos anos em que estudei História, li textos de várias épocas (originais ou transcrições): textos medievais, textos modernos, textos contemporâneos. A tendência, à medida que avançamos cronologicamente, é que a língua ou, melhor dizendo, a grafia evolua de forma a ficar simplificada.

Não é preciso ser-se estudante de História ou ainda fazer uma visita aos arquivos distritais para verificar que a grafia da língua portuguesa mudou ao longo do tempo. Por estes dias acabei de ler um livro [mais sobre esse livro aqui], uma edição com mais de cem anos, que não foi propriamente fácil de ler: não pelo sentido da história, não pela escrita rebuscada do autor, mas pela grafia.

O livro é de 1909/10, sendo que em 1910/11, implementou-se um Acordo Ortográfico (será mais correcto dizer reforma ortográfica) que, basicamente, alterou a grafia complicadíssima com os duplos L (apenas para citar um exemplo) para a que hoje conhecemos. Essas medidas não foram grandemente aceites, tal como hoje não aceitamos o AO de 1990, que pretende simplificar a grafia.

E simples é a palavra de ordem deste Acordo Ortográfico e dos antigos, dos seus apologistas e dos seus detractores (se me permitem a rude interpretação), pois é isto precisamente o defendido e o criticado, a simplicidade. Porque a grafia fica demasiadamente simples, porque a tendência é a simplificação, porque se deve escrever tendo em conta a fonética, porque inúmeras razões.

A questão principal, na minha perspectiva, não é o facto de o AO tornar a língua simples, nem tem a ver com razões filológicas, filosóficas, éticas, linguísticas, políticas ou outras que, porventura, me poderei ter esquecido de mencionar. A questão tem a ver com praticidade.

Admitamos: nós apenas não gostamos do AO porque não é prático, porque não é viável, de um momento para o outro, reaprender a escrever (ou porque não queremos ou porque não podemos). Se perguntarmos a uma criança o que pensa do AO, ela não saberá responder e nem tão-pouco o irá criticar, porque já aprendeu a escrever assim do início – não tendo que passar pelo complicado processo dessa aprendizagem novamente.

A língua/grafia evolui e uma pessoa evolui com ela. De resto, como somos seres com livre-arbítrio, temos a liberdade de escrever como mais nos convém, isto é, de escrever como nos ensinaram ou de escrever como agora nos querem obrigar.

Mentir sobre livros

01/09/2013

Quadro de Nom Kinnear King
Foi realizado um estudo, não científico, mas apenas a título de curiosidade, para revelar à humanidade quais os livros que as pessoas dizem ter lido quando, pelo contrário, muito provavelmente nem sequer lhes tocaram.

A lista dos livros é interessante, contendo tanto livros clássicos como livros contemporâneos. O curioso, e que poderia tornar este estudo verdadeiramente científico, seria descobrir a razão de alguém mentir sobre um livro, impondo-se duas perguntas, a meu ver, pertinentes:
  1. Porque uma pessoa faria isso – melhor dizendo – que tipo de conversa leva a pessoa a mentir sobre um livro?
  2. Porque a pessoa mentiria, sabendo de antemão que esse tipo de mentira é das mais fáceis de se descobrir?
Existem, e foi provado, certas pessoas que cometem esse delito moral (mentiras pequenas são, na mesma, mentiras). Não deixa de ser intrigante, pois realmente não há qualquer necessidade de mentir sobre livros. Admitamos que todas as pessoas que se interessam pelos livros que lemos ou não lemos, são suficientemente inteligentes e sensatas quanto ao assunto.

Em primeiro lugar, compreenderiam que livros são enésimos, não tendo uma pessoa tempo ou vontade de ler este ou aquele em particular. O que, de resto, é muito natural, pois não se pode ler todos os livros ao mesmo tempo, nem muito menos apreciar todos os géneros. Em segundo lugar, reconheceriam que uma pessoa tem o direito de não gostar de determinado livro, podendo ter lido apenas meia dúzia de páginas e nunca mais ter pegado nele.

Em suma, essas pessoas que se interessariam pelos livros que lemos ou não lemos (admitindo que seriam inteligentes e sensatas), não nos julgariam pelos livros que não lemos. Aliás, tenho em crer que essa seria, até, a última coisa que fariam, tendo em conta o princípio universal de apenas julgar um leitor pelos livros que realmente leu (e costuma ler).

Talvez a razão de mentir sobre livros resida tanto na necessidade de aceitação como na necessidade de não se ser considerado ignorante. Grandes males não virão se estas mentiras forem descobertas, porém uma reputação de pessoa culta e honesta acaba naquele instante.

Todavia, tudo isto são suposições. Acredito efectivamente que ninguém queira saber dos livros que uma pessoa lê ou deixa de ler. Falo por mim, pois são raras as vezes em que me perguntam tal coisa.

É uma pena, uma lástima, diria, não ser atacada com perguntas de cariz literário: a maior parte das pessoas que conheço não se interessam por livros, enquanto eu só conheço assunto que tenha a ver com eles. Analisando a situação, eu não tenho conversas com ninguém – restando-me a consolação de saber que, pelo menos, não minto.

A guerra de Nietzsche contra o cristianismo

18/11/2012

Primeiramente, peço desculpa por não ter vindo actualizar o hvr, embora já tenha o meu computador arranjado. Tenho andado com inúmeros trabalhos académicos para fazer e, apesar de (ainda) conseguir ler, não me tem apetecido escrever sobre isso mesmo.

Todavia, enquanto escrevinhava uns esboços de uns textos, tive a felicidade de encontrar umas pequenas considerações (com vários meses de vida) sobre O Anticristo, de Nietzsche - o que prova que a minha existência não é composta apenas de má sorte e de percalços. Ei-las:

O filósofo - imagem encontrada aqui.
Friedrich Nietzsche advogava o fim do cristianismo com toda a força da sua convicção – tanto que ele próprio se denominava o anticristo. Naturalmente que, aqui, anticristo não encaixa na definição cristã comummente aceite, ou seja, anticristo que trará mal à humanidade. Anticristo, aqui, na definição de se ser simplesmente contra o cristianismo.

O filósofo era inimigo do cristianismo, na verdadeira acepção da palavra. Por exemplo, Nietzsche acusa o cristianismo de derrubar o império romano e de eliminar o Renascimento (que, como o nome indica, foi um regresso dos valores clássicos). Mais um exemplo: o filósofo não suporta a ideia de Lutero ter feito a Reforma – uma vez que a igreja ter-se-ia iniciado a mudar, de acordo com a realidade da vida, da natureza.

É isto que o filósofo defende e acredita: que a religião cristã é contra a natureza, contra os nossos instintos naturais e que, assim, vai eliminando a essência da vida (o que é, a título de curiosidade, o que os satanistas laveyanos defendem).

Nietzsche chegou a estudar Teologia, mas acabou por não concluir os estudos da disciplina, por razões bastantes óbvias. Como me disse uma amiga minha, em conversa sobre o livro, primeiro é preciso conhecer para depois ser-se contra.

Uma premissa relevante. O filósofo conheceu por dentro o cristianismo e, portanto, sabe do que está a falar. Aliás, são essas as suas armas: o próprio entendimento da religião. Como chega a afirmar na obra, a melhor maneira de derrubar o cristianismo é encontrar as suas contradições (que são imensas e que, por isso mesmo, não as relatarei aqui).

Este é, portanto, um ponto de partida para lermos de bom grado esta obra – pois sabemos que o que Nietzsche fala, mesmo não indo de encontro às nossas convicções, fala-o porque sabe do que está a falar. E isso é o mais importante nesta obra – e em qualquer outra do tipo.

O Evangelho de Saramago e a opinião dos outros

31/07/2012

Imagem daqui.



«É a obra mais polémica de José Saramago e aquela que, indirectamente, o levou a sair de Portugal e a refugiar-se na ilha espanhola de Lanzarote. Ficou para a história o desentendimento com o então subsecretário de estado da Cultura Sousa Lara, que considerou o livro ofensivo para a tradição católica portuguesa e o retirou da lista do Prémio Europeu de Literatura. Com um José destroçado por ter fugido e deixado as crianças de Belém nas mãos dos assassinos de Herodes; com uma Maria dobrada e descrita, logo no início do livro, em pleno acto de conhecer homem; com um Jesus temeroso, um Judas generoso, uma Madalena voluptuosa, um Deus vingativo e um Diabo simpático, não era de esperar outra reacção das almas mais sensíveis e mais devotas do catolicismo português. E verdadeiramente viperinas são as várias páginas onde o escritor português se entretém a descrever minuciosamente os nomes e a forma como morreram os mártires dos primeiros séculos do cristianismo. Assim se escreveram os heréticos Evangelhos segundo Saramago, para irritação de muitos e prazer de alguns. Como convém.» (Diário de Notícias, 9 de Outubro de 1998)

Talvez por me ter tornado ateia que não consiga perceber como o Evangelho segundo Jesus Cristo poderá ter ofendido várias sensibilidades quando foi editado. Aliás, não tendo eu qualquer crença, nunca um livro me afrontará, o que me leva a colocar a questão se, fosse eu crente, continuaria a ler este tipo de narrativas de uma maneira imparcial e benevolente.

Acima de tudo, quer crente ou descrente, sou respeitadora da opinião dos outros e, igualmente, da literatura e da arte em geral, acreditando que qualquer um de nós pode exprimir essa mesma opinião, sem que ofenda mortalmente outras pessoas.

Ofender… sempre haverá alguém que ficará ofendido, pois sempre haverá alguém do contra e nem se pode agradar a todos; o máximo que poderei afirmar, neste contexto, é que uma pessoa é livre de exprimir a sua opinião desde que não interfira com a felicidade dos outros indivíduos.

Mexer com a felicidade dos outros através da opinião é dificílimo, senão mesmo impossível, pois como poderá uma opinião tornar-nos felizes ou infelizes? É uma opinião, diríamos nós, todos a têm, estão no seu direito, se nos fôssemos importar com todas as opiniões não faríamos mais nada…

É neste patamar que coloco os livros e quem os escreve. Como expressão de opinião e como formadores dela (lembremo-nos que até na história mais fantasiosa o autor coloca nela parte de si), não nos podemos sentir fatalmente atacados por eles, a não ser, claro está, que o livro seja propositadamente escrito para nós (e só para nós).

Em boa verdade, ninguém é obrigado a ler o que não quer no seu tempo livre (excluo aqui, obviamente, os livros que se leem por obrigação académica), portanto não vejo o mal que um livro poderá causar – até porque um livro só provoca o bem-estar de uma pessoa.

Naturalmente, com as ofensas causadas por um livro, vêm as críticas. A principal delas, estou em crer, é a de que, sendo Saramago descrente, não deveria analisar os meandros, as miudezas e as minuciosidades da religião – deduzindo-se, daqui, que não teria domínio para tal. O livro, inclusive, foi eliminado da lista de livros portugueses candidatos ao Prémio Europeu de Literatura (pelo que, anos depois, o Nobel ganho por Saramago deve ter sido um estalo de luva branca àqueles que vetaram O Evangelho segundo Jesus Cristo).

Pois é precisamente pelo escritor ter conhecimento do que está a narrar que tem o pleno direito de criticar. Lembrei-me, neste âmbito, de Nietzsche, que estudou Teologia e depois escreveu obras como O Anticristo – sabendo, genuinamente, do que estava a escrever.

O conhecimento bíblico de Saramago é comprovado pelo próprio livro, que não é fácil de entender por quem não sabe patavina de religião (eu) – nada que umas pesquisas aqui e umas perguntas acolá não resolvam.

O meu ponto de vista é que estas críticas de Saramago não poder falar de religião porque, primeiro, é ateu, segundo, por ser ateu, não teria conhecimento da religião, são bastante e incrivelmente infundadas.

Se o autor tem um pleno conhecimento dos assuntos religiosos, porque não falar deles, quer a bendizê-los ou a maldizê-los? A questão, aqui, é que o escritor, sendo conhecedor dos assuntos que narra, tem autoridade para o fazer. Pior seria se decidisse escrever um livro deste calibre sem ter qualquer ciência no assunto – um verdadeiro escândalo.

Não nego que o livro seja uma crítica aberta à religião cristã, que o é, apenas afirmo que é uma crítica muitíssimo válida, independentemente das crenças ou descrenças do autor. O problema, arrisco-me a dizer, é que o livro, como qualquer outro, foi levado à letra, e não foi interpretado como o que é, ou seja, como uma obra literária.

A resignação de Crusoe

09/06/2012

Existe um dito popular que reza que o comum mortal tem a obrigação de fazer limonada com os limões que a vida lhe dá. Por outras palavras, tem de se conformar com o seu destino, já que o destino é mesmo assim, sendo teimoso, não muda.

Não há exemplo mais perfeito dessa resignação com a vida do que Robinson Crusoe (que lhe chama carinhosamente Providência), personagem criada por Daniel Defoe para um romance baseado em factos reais.

Em inúmeras leituras que fiz, nunca me apareceu pela frente uma personagem que se conformasse de forma plena e completa com a vida – ou Providência, ou vontade de Deus, ou destino, etc.. O que espanta em Robinson Crusoe é o seu olhar sempre positivo e otimista (repito: sempre) sobre o que lhe acontece.

Chega, inclusive, a fazer uma tabela “comparando os bens e os males, estabelecendo uma espécie de dever e haver; de um lado os prazeres que desfrutava, e do outro os males que sofria”.

A dita tabela contrapunha os males e os bens, sendo que estes últimos advinham exclusivamente das suas misérias. Ou seja, Crusoe pôs em prática a teoria condescendente do “há males que vêm por bem” – se bem que, para nós, pessoas pessimistas por natureza, não há bem nenhum, nem deleite, nem alegria, em permanecer 28 anos numa ilha. Eis a dita tabela:



Podemos daqui reter que Robinson Crusoe apreciava bastante o facto de estar vivo. E nós aqui, descontentes por ninharias e bagatelas, como o tempo estar mau ou termos engordado! O marinheiro arranja sempre maneira de ultrapassar as adversidades (por exemplo, chegou a fazer pão).

Sobretudo, é otimista em relação a tudo o que lhe acontece, apesar de não alimentar qualquer esperança de vir a sair da ilha. Em boa verdade, não havia nada que ele pudesse fazer, a não ser ir sobrevivendo com os limões amargos que a Providência lhe fornecia.

Robinson Crusoe é um verdadeiro modelo de existência a seguir: não podemos mudar algumas coisas que estão no nosso caminho (boas ou más, mas aqui interessam-nos as más), porém podemos extrair algo que seja bom desses males que nos calham.

*Primeiro texto que fiz seguindo as novas regras de ortografia.

Vade retro, senhor Nietzsche!

17/03/2012

Pormenor de um quadro de Luca Signorelli, de 1505

Eu julgava-me uma espécie de anticristo, simplesmente pelo facto de ser ateia. Em boa verdade, admitamos, ser-se ateu já é, na perspectiva de alguém religioso, ser-se anticristo. Analisando etimologicamente a palavra, ela tanto pode significar “inimigo de Cristo” ou “aquele que vem antes (da segunda vinda) de Cristo”.

Estava eu a dizer que me julgava uma espécie de anticristo, até ter lido O Anticristo, de Nietzsche. Se a obra, hoje, é capaz de ferir susceptibilidades, não consigo imaginar o furor que não terá sido nos finais do século XIX…

O livro, se bem analisado, não tem motivos para grande polémica: a ideia do filósofo é o que todas as pessoas inteligentes sabem, isto é, que o cristianismo é contra os instintos naturais e, por conseguinte, contra a vida.

Ainda relativamente a esta ideia, não deixei de notar uma relação com o satanismo laveyano (que veio muito depois de Nietzsche) – o que não é de se admirar, pois o satanismo laveyano parte dessa mesma premissa. O que poderá admirar os mais desatentos é verificar que todos são anticristos e satânicos.

Eis aqui mais uma premissa de Nietzsche: todos são anticristos porque simplesmente não conseguem seguir a religião – e isto porque, como já dito, a religião é contra a vida e contra a natureza, não expressando qualquer realidade que seja verdadeira.

Claramente. E será que alguém (exceptuando os fanáticos religiosos) segue escrupulosamente o que é dito na bíblia? Será que alguém é casto, miserável, bondoso para com todos, que perdoa todos os males que lhe fazem?

Não. Não o era no século XIX nem o é nos dias que correm. Uma das minhas interpretações deste livro, e que o próprio filósofo chega a afirmar, é que quem é cristão e não segue esses ideais só pode ser uma coisa: mentiroso (adjectivo proposto por Nietzsche, que se referia aos padres) ou, utilizando um eufemismo, hipócrita.

Seguindo esta linha de raciocínio: ou as pessoas são mentirosas (porque são religiosas), ou são anticristos (porque precisamente não o são). Sendo assim, sempre houve anticristos e o filósofo alemão não foi o primeiro nem o último deles.

Nietzsche critica friamente o cristianismo e toda a cristandade, faz-lhe uma guerra, mas será, talvez, dos poucos que têm razões aprofundadas para o fazer. O senhor iniciou os seus estudos em Teologia, que não chegou a concluir, por razões que se nos afiguram óbvias.

Este conhecimento da religião faz com que os seus argumentos sejam perfeitamente justificados. Para mais, o próprio defende que a melhor arma conta o cristianismo é o próprio cristianismo, já que a religião se contradiz a si mesma.

Existem outras premissas no livro, que não têm que ver propriamente com o cristianismo, porém, não cabendo neste singelo espaço, será matéria para outro texto. Em conclusão, a principal premissa da obra é a seguinte:

Cristão = anti-natureza, anti-realidade, anti-conhecimento
Anticristo = viver.

De qualquer maneira, quer o leitor seja um ávido e fervoroso cristão, ou um céptico e incrédulo ateu, este é um livro que serve para reflectir, para pensar. Ou não fosse uma obra de cariz filosófico.

*O título deste texto é um trocadilho engraçado. Digo eu...

Considerações sobre Sherlock Holmes (e as minhas anotações) - parte 2

25/02/2012



Ler a parte 1 aqui.

4. Sherlock Holmes não gosta da maneira como Watson, seu amigo, cronista e biógrafo, escreve as narrativas sobre as suas aventuras. Para Holmes, Watson coloca muita dramaticidade e sensacionalismo nas histórias, em vez de se concentrar no que é essencial, isto é, nos casos em si, na ciência das coisas. E Watson argumenta que apenas dá a conhecer as faculdades de Holmes. Se Arthur Conan Doyle escrevesse as histórias sem dramaticidade e certo sensacionalismo, seriam menos interessantes.

“(…) devo confessar que você tem um dom de selecção que desculpa muita coisa deplorável, a meu ver, nas suas narrativas. O seu hábito fatal de olhar para tudo como uma história, em vez de exercício científico, arruinou o que poderia ter sido uma instrutiva e até mesmo clássica série de demonstrações. Refere-se por alto a um trabalho de grande astúcia e delicadeza, para se apoiar em pormenores sensacionalistas, que podem excitar, mas não instruir o leitor.”(A Granja da Abadia)

5. Quem nos conta as histórias de Holmes é Watson, como todos sabemos. Watson centra a narrativa na personalidade de Holmes, portanto pouco sabemos sobre o nosso querido narrador – o que não deixa de ser uma pena.

6. Sherlock resolvia os casos por puro amor à sua profissão e, também, por um sentimento de justiça (não raras vezes deixa escapar um criminoso, pois considera o crime como um acto de justiça). Quanto mais estranho o caso fosse, melhor seria para o detective resolvê-lo.

“Como todos os artistas, Holmes amava a arte pela arte e, a não ser no caso do duque de Holdernesse, raras vezes o vi reclamar grande recompensa pelos seus inestimáveis serviços. Tão desprendido – ou caprichoso – se mostrava, que muitas vezes recusava-se a ajudar os ricos e poderosos, dedicando semanas aos interesses de qualquer cliente humilde que lhe trouxera um caso cheio de curiosas e dramáticas qualidades que apelavam para a sua imaginação e lhe desafiavam a argúcia.”(Pedro Negro)

7. Curiosamente, as faculdades extraordinárias de Holmes, segundo o próprio, são hereditárias.

“O assunto em questão era saber até que ponto uma característica especial de um indivíduo se devia aos seus antepassados ou, por outro lado, a um treino iniciado muito cedo.
- No seu caso – disse eu –, a julgar pelo que me tem contado, parece óbvio que a sua capacidade de observação e a sua facilidade peculiar para a dedução se devem ao seu próprio treino iniciado muito cedo.
- Até certo ponto – respondeu, pensativamente. – Os meus antepassados eram cavalheiros da província e parecem ter levado a vida inerente à sua classe. Mas, apesar disso, esta minha inclinação está-me nas veias e pode ter vindo da minha avó que era irmã de Vernet, o artista francês. No sangue, a arte está sujeita a tomar as formas mais estranhas.
- Ora, mas como sabe que é hereditariedade?
- Porque meu irmão Mycroft a possui num grau ainda mais elevado do que eu.”

Ser ou não ser - eis a questão

11/02/2012

Imagem daqui.

Ainda sobre o famosíssimo solilóquio de Shakespeare, presente na peça Hamlet. Existem diversas interpretações sobre o mesmo, que incidem basicamente na questão se Hamlet trata do suicídio ou não.

Começo a julgar que o “ser ou não ser – eis a questão” signifique “permanecer vivo ou não”, isto é, se se deve matar ou não, pois o resto do solilóquio trata sobre suicídio – mais concretamente se devemos acabar com o nosso sofrimento ou continuá-lo por medo à morte.

A tradução de “to be or not to be” também poderia ser “estar ou não estar” (estar ou não estar neste mundo; estar ou não estar a sofrer). O “ser” pode significar viver, sendo “viver ou não viver” (com o sofrimento); ou ainda “ser” pode ser equivalente a “sofrer” (“sofrer ou não sofrer” – o que remete para viver com o sofrimento ou matar-se e não viver com ele).

Independentemente das possíveis traduções, creio que todas as formas apontam para uma reflexão sobre o suicídio, a vida e a morte, o porquê de se continuar a sofrer ou não, quer Hamlet seja suicida ou não.

Aliás, esta última hipótese é provável e não é de se descartar, pois na peça Hamlet não põe um fim à sua vida porque quer/tem que vingar a morte do seu pai, para além de ser bastante notável o seu sofrimento.

Este solilóquio prova, mais uma vez, como são subjectivas as interpretações e as impressões que podemos reter de uma obra – que são variáveis de pessoa para pessoa e, até, de estado de espírito ou de momentos específicos que estamos a passar quando a lemos.

Ser ou não ser – eis a questão; será maior nobreza da alma sofrer a funda e as flechas da fortuna ultrajante ou pegar em armas contra um mar de infortúnios opondo-lhes um fim? Morrer, dormir… nada mais… É belo como dizer que pomos fim ao desgosto e aos mil males naturais que são a herança da carne. É esse um fim a desejar ardentemente. Morrer, dormir… dormir… e talvez sonhar. Sim, eis o espinho! Pois que sonhos podem vir desse sono da morte, depois de libertos do tumulto da vida? Eis o que deve deter-nos. Eis a consideração que nos traz a calamidade duma tão longa vida. Pois quem suportaria as chicotadas e mofas do mundo, a tirania do opressor, a insolência do orgulhoso, as dores do amor desprezado, as delongas da lei, a arrogância do poder, o desdém que o mérito paciente recebe dos indignos, quando podia buscar a própria quietude com um simples estilete? Quem suportaria tais fardos, protestando e suando numa vida dura, se não fosse o receio de qualquer coisa após a morte, dessa região não descoberta e de cuja fronteira nenhum viajante regressa, que lhe quebranta a vontade e faz que queira antes sofrer os males da Terra que voar para outros de que nada sabe? Assim a consciência faz de nós uns covardes; assim a cor primitiva de resolução descora perante a pálida luz do pensamento e empreendimentos de grande porte e importância desviam a sua rota e perdem o nome da acção.

*Para esclarecer: na peça, durante o solilóquio Hamlet não segura na caveira; mas segura na caveira quando fala sobre o bobo da corte (que é a caveira).

Considerações sobre Sherlock Holmes (e as minhas anotações) - parte 1

15/01/2012


Comecei a ler as histórias de Arthur Conan Doyle com o famosíssimo detective recentemente, e posso afirmar que nunca antes pequenas histórias me cativaram de uma maneira impressionante como estas. Fiquei fã de Sherlock Holmes, e não foi no autocarro, como fiquei fã dos Megadeth, que isso aconteceu – mas isto, por ora, não interessa.

Como sou uma leitora atenta ao que leio, e por isso mesmo demoro mais tempo a ler, sem me preocupar se ler o mesmo parágrafo duas ou três vezes, é normal que os pormenores das histórias de Holmes me interessem, e que me interessem também as características do detective.

Portanto, decidi reunir algumas considerações que fui fazendo no meu bloco de notas (ainda não uso ipads nem tecnologias parecidas) ao longo das minhas leituras de Sherlock Holmes. Claro que as minhas anotações são anotações de principiante, mas o meu objectivo não é fazer um tratado ou um ensaio sobre Holmes, mas apenas reunir alguns pensamentos sobre o detective e ocupar o meu tempo – pois escrevo isto a um domingo e o domingo é, por norma, um dia entediante (se bem que para mim, qualquer dia é entediante…).

1. Todos nós sabemos que Um Estudo em Vermelho foi onde tudo começou, isto é, onde Watson conhece Holmes e onde o detective nos é apresentado. Porém, foi A Tragédia do Gloria Scott o primeiro caso que Sherlock resolveu. Bem, Holmes não resolve nenhum caso, na verdade, tudo o que ele faz é desvendar uma mensagem. Todavia, esta história é importante porque Sherlock foi incentivado a seguir a profissão de detective e teve um primeiro contacto com a mesma. Notem na lição de vida: seguir uma profissão na qual as nossas manias se adeqúem: só pode dar bom resultado!

2. Watson, de maneira diligente, como costume, descreve-nos as capacidades de Holmes. Descreve-o não sendo propriamente sábio no que toca a filosofia, política ou literatura, por exemplo. Todos sabemos de antemão que Sherlock só sabia o que lhe interessava para o exercício do seu trabalho, mas é interessante verificar que, mesmo sendo inculto em assuntos literários, cite escritores como Flaubert e Goethe.

3. As deduções de Holmes podem parecer-nos bastante inverosímeis e nós, enquanto leitores, ficamos muitas vezes no papel de Watson – que no princípio não entende como o detective deduz os factos, mas com o passar do tempo apanha-lhe o jeito. Nós, humildes leitores, não temos oportunidade de deduzir porque não nos é dada a oportunidade de observar. O que acontece é que, na história, Holmes observa e deduz, mas só depois é que revela o que observou e como deduziu. Conan Doyle, inteligentemente, faz Sherlock deduzir e só depois revelar o que observou, impressionando sempre o leitor (pelo menos a mim):

Sabe, caro Watson, não é difícil fazer uma série de deduções, cada qual dependendo da sua antecedente e cada qual simples em si mesma. Feito isto, se se derrubarem as deduções centrais e se apresentarem à audiência um ponto de partida e logo a conclusão, isso pode produzir um efeito surpreendente, embora, com toda a certeza, demasiado vistoso. (…) De facto! Todos os problemas se tornam infantis depois de explicados. (Os Dançarinos)

Lamentações de alguém que não consegue esvaziar as prateleiras

04/12/2011

É um facto deveras triste, imensamente triste, este. Temos dezenas de livros para ler (de-ze-nas) e somos constantemente atacados com promoções fantásticas, descontos alucinantes e se tivermos sorte até nos dão livros (exactamente, livros grátis), num momento em que tomámos a resolução de não comprar mais livros até lermos o que não temos lido.

Eu sei que este é um problema só meu, creio, porque não conheço mais ninguém que tenha uma lista de espera de livros a serem lidos e que, ao mesmo tempo, adora uma pechincha literária. Se eu fosse menos egoísta e melhor pessoa, podia aproveitar estas pechinchas literárias e oferecer livros a amigos – mas não, compro-os para mim e ponho-os na estante a ver qual o primeiro que fica com as páginas amareladas. O primeiro a ficar amarelado é o próximo livro que lerei – é este o meu critério de selecção.

Talvez (talvez…) eu tenha um problema com livros, se bem que acho que um “problema” com livros não é realmente um “problema”, a não ser que utilize os livros como armas letais. Mas o que realmente me preocupa, para além de colocar a hipótese de um dia ficar sem dinheiro para comer e tiver de comer as páginas dos próprios livros, é o facto de arranjar tempo para ler o que está na lista de espera.

Sim, exactamente. O tempo não é propriamente o meu melhor amigo porque… enfim, se um dia tivesse 48 horas eu talvez lesse o dobro do que leio e, assim, ficava com menos livros para ler – é tudo muito lógico. Ao mesmo tempo, posso contentar-me por um dia não ter 12 horas, porque assim lia metade do que leio e etc., etc., a lógica é a mesma.

Não consigo ler muito e rápido, porque os meus olhos comunicam com o meu cérebro e este, por sua vez, ordena aos meus olhos que fiquem vermelhos e que façam com que eu tenha uma visão turva se ler em demasia, portanto suponho que mais me valia comprar roupa ou sapatos em vez de comprar mais livros – que é, de resto, o que quase toda a humanidade faz. Por outras palavras, ficava com as prateleiras vazias e com o armário cheio.

Já para não falar dos problemas que são realmente problemas. Onde pôr tantos livros? Em caixinhas? Prateleiras? Armários? Estantes? Cadeiras? Mesas? Uma vez cheguei a pôr livros no chão e o resultado não foi tão satisfatório como eu esperava. Livros no chão da minha casa funcionam como a casca de banana nos desenhos animados quando alguém persegue alguém: a queda é certeira.

Porém, o pior de tudo, a cereja em cima do bolo deste desabafo esplêndido, é mesmo o sentimento de culpa e de inferioridade. De culpa, pois acredito piamente que os livros foram escritos para serem lidos e os meus jazem nas prateleiras intactos. De inferioridade, porque creio que sou inferior a todos os outros leitores que conseguem ler dois ou três livros por semana enquanto eu apenas leio um, e fino (ou médio…).

Mentalmente, sinto-me esmagada como se todos os livros que eu tenho caíssem sobre mim se eu passeasse alegremente debaixo duma janela. São apenas muitos livros… O que me resta fazer é ajoelhar-me no chão, levantar as mãos em direcção ao céu e gritar um longo, prolongado e bastante sofrido “NÃO!”, ou ainda mesmo “PORQUÊ?!”.

Que livros (não) lês?

23/11/2011

Quadro de Alexander Deineka, daqui.
Pode ser muito perturbador, mas apenas um número bastante pequeno de pessoas sabe o que eu costumo ler. O que não perfaz um grande incómodo (nem um pequeno, sequer) porque ninguém me oferece livros. O problema é que de qualquer maneira eu não saberia responder à pergunta.

Talvez seja embaraçoso não saber responder, porém temos todos de convir que a pergunta é difícil. Porque leio muita coisa. Fiquei entalada no século XIX, mas mesmo assim leio muita coisa. Pessoa metódica como sou (dizem), torna-se óbvio que tenho uma listagem dos meus livros, lidos e não lidos.

Só que eu não ando com essa listagem comigo quando me perguntam “Que livros lês?”. Tenho escritores preferidos, tenho livros preferidos (eu destes também tenho uma lista), tenho estilos preferidos e temáticas preferidas. Mas não sei definir exactamente o que leio, ninguém o sabe – ou porque lê das mais diversas coisas ou porque, como eu, é esquisitinha com o assunto.

Admito, sou muito pantafaçuda com os livros tal como o sou com a música. Posso gostar dum tema escrito por determinado autor, mas detestar esse mesmo tema se for escrito por outro autor – e isto é apenas um exemplo. Mas também existem mais exemplos: posso gostar da escrita e não da história ou posso gostar da história e não da escrita. Ainda posso nem gostar da história nem gostar da escrita ou gostar das duas coisas…

Revelei antes que ninguém me oferece livros. Provavelmente, é melhor assim (a não ser que me perguntem antes qual é o livro que desejo); e se me oferecessem livros, decerto que seriam os livros errados. Gosto de ser eu a comprar e escolher os meus livros, porque, já foi dito, sou mesmo esquisitinha com o assunto.

Adquiri o hábito de, antes de comprar o livro, pegar nele, ler a sinopse, ler as informações do escritor – caso não o conheça – e ler duas, três, ou quantas páginas me apetecer, mas sem fazer da livraria uma biblioteca. Já estou tão habituada a fazer isto, que já consigo distinguir um livro que para mim seria bom ou mau: se a sinopse já me mostra a história do livro, o livro mostra-me a maneira como a história é contada.

Toda esta conversa tem um objectivo: tal como tudo na vida, definir uma coisa pela sua negação é mais fácil, ou seja, é mais fácil alguém ficar a saber que livros leio se souber o que não aprecio ler.

E na minha existência literária aprendi que há duas coisas que não suporto ler (com o risco de, se alguém me vier com um livro desses, leva com ele na cabeça), sendo as restantes desculpáveis ou desconhecidas – é que ainda não li de tudo nesta vida. Essas duas coisas são: livros lamechas e livros escritos duma maneira demasiadamente simples.

Livros lamechas todos sabemos o que são. E eu não gosto deles porque acredito que essas histórias no mundo real (isto é, fora do papel) não existem. Eu sei perfeitamente que esses livros funcionam como um escape à realidade, só que eu prefiro fugir da minha realidade com a realidade dos outros – que por norma costuma ser bastante pior que a minha. Não me consola, não me contenta, não me faz sentir melhor (salvo raras excepções), mas faz o mesmo que os livros lamechas têm intenção de fazer: fazem-me escapulir do mundo caótico em que vivo.

Suponho também que todos estamos familiarizados com livros com uma escrita simples. São aqueles que parecem que foram escritos por miúdos de 13 ou 14 anos. Dispensam mais esclarecimentos. Não gosto destes livros porque incomoda-me saber que uma pessoa que já tem alguma experiência literária escreve de modo infantil para pessoas adultas (como me incomoda, igualmente, pensar que pessoas adultas não são capazes de digerir uma escrita mais elaborada).

Para mais, irrita-me sobremaneira estar a ler um livro que não me faça reflectir sobre o que quer que seja. Já tive ocasião de o dizer, e digo-o novamente, mas parece-me sempre que livros destes sejam escritos apenas porque sim, para vender, sem um mínimo de amor e consideração pela arte.

Vou começar a fazer uma lista negra de livros…

O psicopata de Wilde

06/11/2011

Imagem daqui.


Esta semana tenho estado a reler O Retrato de Dorian Gray. Eu sei, eu sei, com tantos livros para ler, porque tive que reler um livro? Porque me apeteceu, ora! E porque creio que mereço fazer o que quero fazer, nem que seja de quando em vez, nem que seja ler o que quero - pelo menos a providência isso não me tira.

Nunca antes tinha relido um livro, apenas passagens/excertos sublinhados, assinalados e anotados (ainda hoje pego muitas vezes n'O Sonho de um Homem Ridículo, de Dostoiévski, e leio as primeiras páginas). E posso assegurar que reler um livro é uma das coisas mais extraordinárias que se podem fazer, é como reencontrar um velho e bom amigo que não vemos há muito tempo pela incontrolável e imperceptível forças das circunstâncias: lembramos do porquê de sermos amigos, lembramos de aspectos que nos tínhamos esquecido e, apesar do tempo passado, descobrimos que continuamos amigos, que a amizade não esmoreceu. 

Ou seja, ao reler um livro lembramo-nos das passagens que nos marcaram mais, dos pormenores que nos tínhamos esquecido por completo e descobrimos que continuamos a gostar dele, tanto ou mais como da primeira vez que o lemos. É essa a magia da amizade e de reler um livro: as coisas nunca mudam, apenas nós e a percepção que temos delas.

Porquê O Retrato de Dorian Gray? Porque não a Crónica de Uma Morte Anunciada, de Gabriel García Márquez? Ou o Eterno Marido, de Dostoiévski? Ou ainda Tempos Difíceis, de Dickens e Madame Bovary, de Flaubert? Não sei. Apeteceu-me ler Dorian Gray.

Inconscientemente, talvez a razão de reler este livro fosse por causa da minha vontade de querer ver o filme (o de 2009) - que a crítica diz ser muito mal adaptado. O facto é que, mais tarde ou mais cedo, eu teria realmente de reler a obra, nem que fosse para fazer análises e críticas e juntá-las ao meu cânone sobre Oscar Wilde.

Desde a última vez que li o livro, já li mais algumas obras de Wilde. E pude aperceber-me que o  escritor (melhor será dizer dramaturgo) vai "repetindo" as ideias/observações das suas personagens - daí que tenha as suas cínicas personagens-tipo. Não que eu não tivesse reparado nisso antes, mas desta vez achei o facto mais perceptível.

Juntamente com esta espécie de epifania, veio o entendimento de que, seriamente, a repetição das ideias/observações seria uma (continuação de uma) dura crítica à sociedade e não carência de originalidade literária e iluminação de espírito - ninguém neste mundo pode acusar Oscar Wilde por essas faltas gravíssimas.

Ao reler um livro, qualquer que ele seja, apercebemo-nos de que existem pormenores, subtilezas que não tínhamos dado por elas (ou esquecido totalmente). No meu caso, comecei a ver Dorian Gray como um psicopata, mesmo antes de cometer crimes hediondos - não pelo facto de cometer esses crimes e levar uma vida de depravação, mas simplesmente devido à sua forma de pensar e de agir, alternando entre a ansiedade extrema e o derradeiro êxtase e orgulho, a manipulação e o aproximar-se dos outros para lhes fazer algum mal (pois não podia ser só coincidência as suas relações acabarem sempre mal, mesmo que Wilde justifique isso como a influência que Dorian exercia sobre elas). 

Talvez seja a minha fascinação por psicopatas a falar mais alto (fascinação normal como as outras...) mas estou em crer que Oscar Wilde criou um psicopata. De qualquer maneira, é inegável que esta magnífica obra, pelo menos para mim, retrata de uma maneira perfeita o vazio e superficialidade de muitos indivíduos, mesmo nos dias de hoje, que julgam erradamente que a beleza é tudo.

Digo que julgam erradamente, pois basta-nos ver a desmoralização de Dorian Gray e a decadência que a sua mente vai sofrendo, e o eterno jovem sofre verdadeiramente com o seu aspecto físico (mas não por causa dele, ressalve-se), para vermos que a premissa de que a beleza é o mais importante é inteiramente desacertada, em toda a sua essência.

No final do livro, Wilde mostra-nos que afinal Dorian Gray tinha uma certa consciência do que fazia (sempre a teve, ao longo do livro) e que queria redimir-se e recuperar a alma para se livrar do próprio sofrimento; todavia, era demasiado tarde para isso - talvez a alma de alguém nunca volte a ser o que era depois de corrompida.

Não estou a afirmar que a ideia principal da obra é crer que a beleza é uma maldição, mas pode sê-lo se a tomarmos como o principal (mais uma vez, esta é apenas a minha ideia). De qualquer maneira, vale a pena investir no pensamento de que a beleza está para além do exterior (e de que o que é bonito por fora pode não o ser por dentro).

Pensamentos e ideias comuns, que todos nós sabemos e que todos nos ensinam, mas que Wilde descreveu-os com mestria, com o bónus de criticar a alta sociedade (supérflua) inglesa do séc. XIX. Em suma, uma obra-prima de um grande artista.

*Já vi o filme e está, realmente, muito mal adaptado. A história em si é boa, mas não tem nada a ver com o livro.

Lord Of The Flies (não, não é o livro)

30/10/2011


Um dia destes encontrava-me a ver livros (sempre tendo na cabeça a ideia de que, efectivamente, não posso comprar mais livros) quando me deparei com o Lord Of The Flies, de William Golding.

O meu comentário para mim mesma, dito muito baixo, até porque estava sozinha, e com um sorriso estampado na cara, foi este: “Ah, é a música dos Iron Maiden!”. Fielmente assim, foi o meu comentário. Não foi um “Oh, este livro é tão famoso” ou “Já ouvi falar deste livro”, nem o meu tão típico “Parece interessante…”.

O comentário que fiz para mim mesma quando vi o livro só comprovou o facto de ele ser cativante e belo, porque, muito honestamente, não creio que os Iron Maiden fizessem uma música sobre um livro que seja mau.

Não foram raras as vezes em que eu comentei isto ao ver ou ler um livro pela primeira vez, é verdade. Pessoa ignorante como eu, não é de admirar que o meu primeiro contacto com certos livros seja através das músicas duma banda de heavy metal. Posso ser literariamente inculta, mas pelo menos tenho bom gosto musical.

Desviando o assunto da literatura por um momento: é por esta razão que gosto dos Iron Maiden (há mais motivos, mas não interessam para este texto e não me apetece enumerá-los), são cultos, gostam de ler e são talentosos o suficiente para fazer músicas sobre o que lêem.

Reconheço que seja difícil fazer músicas sobre o que se lê, e sei-o por experiência própria. Tentei fazer o dito engenho com “Juventude”, de Joseph Conrad, e o máximo que consegui fazer foi um belíssimo título: “Youth” que, curiosamente, é o título original do livro, pelo que não fiz quaisquer progressos...

Regressando aos assuntos literários: como os caros leitores puderam verificar, e como eu já disse anteriormente, existir músicas sobre livros é uma grande e esplendorosa ideia para incentivar a leitura. O que é realmente pena é que ninguém ouça os Iron Maiden e que a banda faça músicas sobre livros que ninguém lê (exactamente, os ditos clássicos)…

A pessoa de Sherlock Holmes

15/08/2011


Lembro-me de uma vez em que a minha professora de português se queixou que um seu aluno, de visita a Londres, queria dar uma vista de olhos à casa de Sherlock Holmes – com o motivo óbvio de querer conhecer a residência onde o homem viveu.

Menos óbvio para esse aluno era, contudo, o facto de Sherlock Holmes ser uma personagem criada por Arthur Conan Doyle e o famosíssimo 221-B da Baker Street ser um lugar fictício (se bem que a partir dos anos 30 passasse a existir).

Não condenemos o aluno, nem o apelidemos de criatura ignorante, pela simples razão de que Conan Doyle criou uma personagem que ultrapassa, de longe, a figura existente do próprio criador. Por outras palavras, quem existe para nós, que somos leitores, é Sherlock Holmes e não Arthur Conan Doyle.

E isto acontece, muito em parte, pela maneira exímia com que Conan Doyle escreve: escreve de maneira a obliterar qualquer pensamento próprio e transferi-lo para a personalidade de Holmes – nunca uma personagem, pelo menos das que tenho conhecimento, foi tão envolvente como a do detective (facto que atribuo às dezenas de histórias de Holmes, em que Watson centra a narrativa nas capacidades do seu companheiro e não propriamente no caso a ser resolvido).

Estamos habituados, enquanto leitores, a verificar reminiscências da individualidade do escritor nos livros, porém quando lemos Sherlock Holmes, a coisa muda: o nosso subconsciente atribui essa mesma individualidade ao detective.

Naturalmente que é pela maneira como Arthur Conan Doyle construiu a personagem – estranha, invulgar, diferente – e se sabemos que a mesma foi baseada num professor do autor, é-nos difícil rever o escritor no livro, apesar de ter sido o génio que criou Holmes.

Voltando à escrita de Conan Doyle, esta é uma das razões, diria mesmo que principal, que explica a elevada fama da personagem: uma escrita acessível, sem muitos floreados, fácil de ler e de entender, compreensível tanto para as pessoas cultas como para as que carregam menos bagagem literária nas suas vidas.

Torna-se, assim, transparente como água porque entranhamos e adoramos o detective. E se alguém se atrever a questionar esta premissa, que se tente lembrar do que é feito de Dupin…

O tal aluno pode desculpar-se argumentando que existem biografias de Sherlock Holmes, ensaios e teorias sobre o que o detective fez ou deixou de fazer, o que gostava ou desgostava, qual foi o seu passado e qual foi a sua família.

Há, inclusive, estátuas de Holmes, que também tem o seu próprio museu – o que comprova como estamos bastante familiarizados com ele, como se chegasse mesmo a existir (todavia, existem pessoas que acreditam neste facto).

E, posto isto, quem pode culpar aquele aluno? Não foi o primeiro a acreditar na existência de Sherlock Holmes, nem certamente será o último.

Folhetos de livros, Nora Roberts e literatura light

10/08/2011

*A relembrar que isto é somente a minha opinião. 

Imagem daqui.

Num belo dia, uma amiga minha advertiu-me, quase aos gritos demonstrativos de angústia, para eu não ler Nora Roberts. Primeiro, por causa das histórias lamechas (o que, por si só, já é muito detestável para mim), e depois devido a uma escrita simples. Sempre fiquei curiosa em saber o porquê de tantos gostarem da autora e de alguns não a suportarem – mas não formulei qualquer opinião até realmente ler algo escrito por ela.

Encontrei um panfleto do livro “Inocência Perdida” na casa da minha avó. Fazer panfletos de livros é uma coisa bastante útil, já que alguém pode conhecer e levar um bocado de livro consigo e, melhor ainda, um escritor é-nos apresentado.

Como nunca tinha lido nada da Nora Roberts, pensei “Porque não? É só um capítulo…”. Devo dizer que aprendi o que é literatura light com a escritora – e isto não lhe é exactamente um elogio…

Não entrarei em análises extensivas de um mero capítulo (para fazer análises tinha de ler o livro todo – coisa que dificilmente farei), porém não posso deixar de pensar em como a escrita de Roberts é muito simples. Demasiadamente simples.

E, palavra de honra, o problema não é a tradução – é mesmo a escrita em si (e eu, que não suporto uma escrita elementar). Eu não tenho intenções de ofender alguém, mas à medida que ia lendo o folheto fiquei com a impressão de que a senhora escreve por escrever. E todos nós sabemos que quando se faz uma coisa por fazer o resultado não é bom.

Chega-se, então, à conclusão do porquê do seu sucesso: simplicidade. As pessoas lêem mas não querem ler uma coisa muito difícil, que faz pensar, que faz reflectir. E quando mal existe tempo para respirarmos (louvada seja a respiração, que é autónoma), quer-se é ler uma coisinha que se leia à primeira – ou sou apenas eu que costumo parar a leitura e reflectir sobre o que foi lido? – e que demora não mais que uma ou duas semanas, no máximo.

Isto é possível com Nora Roberts. Não faz reflectir e o máximo que pude encontrar de alguma reminiscência filosófica no sobredito folheto foi “A jovem lamentaria ambas as experiências [relações amorosas que não duraram] com a intensidade que uma mulher lamenta os primeiros cabelos brancos. Sentia alguma raiva, amargura e até medo. Mas pintava por cima.”

É tudo uma questão de gostos, sei perfeitamente disso. Todavia, entristece-me que ninguém leia alguma coisa que faça reflectir. Porque reflectir uma vez por outra mantém o cérebro a funcionar correctamente – e os seres humanos não foram feitos somente para juntarem letra a letra e palavra a palavra até formarem uma frase que não tem qualquer significado.

(Sem ofensa…)

12 maneiras curiosas de incentivar a leitura

23/05/2011

Diz-se muito que se lê muito pouco. Não sei… Nunca me decidi a andar pelas ruas a perguntar às pessoas se lêem e, caso a resposta seja afirmativa, o quanto lêem – até porque é uma coisa que não me interessa: não quero perder o meu tempo a fazer perder o tempo a desconhecidos. E, convenhamos, enquanto eu iria fazer este inquérito por minha conta, tanto eu como os inquiridos poderíamos estar a ler.

Tentei observar os hábitos de leitura de conhecidos meus, mas… É, eu não conheço muita gente para ter dados suficientes para descobrir este mistério por mim mesma (bem-feito para mim, ninguém me mandou ser sociopata). Contudo, com as minhas capacidades de observação, e com algumas perguntas a pessoas competentes, cheguei à conclusão de que ninguém lê e ninguém é iluminado pela sabedoria que os livros transmitem (não podemos descartar a hipótese de eu apenas ter espiado pessoas que nem sequer sabem o que é um livro).

Quer se leia muito, pouco, muito pouco, ou mesmo nada (isto é grave…), é sempre de grande utilidade incentivar a leitura – sim, para que todos fiquemos iluminados ou ainda mais iluminados, dependendo do caso, com a sabedoria que os livros transmitem. Acredito imensamente que se todos lessem um livro por mês poderíamos não estar num mundo melhor, mas certamente que estaríamos mais inteligentes e contentes: inteligentes porque um livro ensina o que quer que seja e contentes porque poderíamos passar a viver na história desse livro e não na nossa vida miserável.

A questão, agora, muito pertinente, é a seguinte: como incentivar a leitura? Sim, como vamos fazer com que pessoas que só usam livros para porem debaixo do pé da mesa para que ela fique nivelada se transformem em pessoas solitárias cujos únicos amigos são os livros? (Reconheço que estes exemplos são uma completa hipérbole, mas deve haver alguém que se identifique com eles…). As minhas simples e muito humildes sugestões são estas:

1. Livros em jornais. Isto era uma coisa muito popular no século XIX e consiste em romances virem publicados por partes em periódicos (Dickens fazia isto, por exemplo). Como é que isto, exactamente, iria incentivar a leitura? Imensas pessoas lêem jornais, nem que seja nos cafés. Um título catita e uma história interessante chamam a atenção de alguém. Se a escrita for bonita e acessível a pessoa passa a gostar do conteúdo. Se o capítulo da história acabar a meio, a pessoa vai querer saber o que acontecerá a seguir, ou seja, vai ler o próximo capítulo.

As vantagens são claras: o escritor fica conhecido e ganha leitores, o jornal ganha leitores, o café ganha dinheiro (porque presumo que não haja alguém que tenha coragem suficiente para entrar num café e pôr-se a ler o jornal sem consumir nada) e se a história ganhar direito a um livro, esse livro está a meio caminho andado para o sucesso. Isto tudo, claro, numa perspectiva positiva e optimista das coisas. Vamos supor que ninguém lê jornais e que a história é hedionda. Nunca mais alguém quereria saber de literatura…


2. Mais Feiras do Livro. Não uma Feira do Livro por semana, mas duas ou três Feiras do Livro por ano sabiam bem para além de incentivar a leitura (ler aqui). E uma Feira do Livro ao ar livre, em tempo primaveril, em que qualquer comum mortal pode experimentar o prazer de folhear e ler um livro enquanto ouve os pássaros a cantar? Num espaço verde? Com alguém a tocar guitarra debaixo duma árvore? E outro alguém a recitar poemas? Era bom demais para ser verdade…

3. Máquina de livros. Esta foi inventada, segundo parece, por um brasileiro. Funciona como aquelas máquinas de vender doces, chocolates, bolachas, sandes e bebidas nas horas de maior aperto, só que em vez de mantimentos, tem-se livros. Porque não? Estamos num hospital à espera de sermos atendidos faz horas e esquecemo-nos do livro em casa (“oh, não tenho de tempo de ler no hospital”, pensamos nós; pensámos mal!). Compramos um nessas maquinetas e ficamos entretidos por mais algumas horas.

Como isto divulgaria a leitura? Não sei, mas quer-me parecer que haveria muitas pessoas a querer comprar livros nessas máquinas apenas por curiosidade. Poderiam muito bem ler e gostar do livro… Para mais, um local que se compre livros que não seja a livraria é um incentivo à leitura, pois há pessoas que cultivam um medo horroroso de livrarias.

4. Capas dos livros. Capas bem feitas e bonitas são meio caminho andado para conquistar um leitor. Isto é quase como as capas dos álbuns dos Iron Maiden que conquistam ouvintes. A nossa atenção centra-se na capa e ficamos com apetite em saber se o conteúdo do livro corresponde à capa. Seria útil, neste caso, não enganar as pessoas: não ponham boas capas em maus livros. Claro, isto tudo é uma questão de gosto. Afinal, o que é um bom livro e uma boa capa…?

5. Emprestar/dar/trocar livros. As iniciativas para estimular a leitura também têm de partir de nós próprios. Vamos fazer um favor às pessoas não iluminadas e emprestar ou oferecer livros. Se conhecemos a pessoa, conhecemos os gostos dela e sabemos do livro exacto que a vai conquistar para o fascinante mundo da imaginação alheia (sim, porque a imaginação que levou o escritor a escrever o livro não é propriamente nossa).

Porque não trocar livros? Se a Providência nos deu o agrado de sermos amigos de pessoas que também lêem e, melhor ainda, que partilham os mesmos gostos literários que os nossos, trocar livros a título definitivo ou temporário será uma boa ideia. Um livro que eu tenha, o meu amigo pode não ter e vice-versa. E se o nosso amigo tiver gostos por livros diferentes dos nossos, será uma oportunidade extraordinária de alargarmos os nossos horizontes e conhecimentos literários.

6. Sermos chatos como a ferrugem. A sério. Se falarmos bastante e com um tom entusiástico sobre um livro, talvez alguém se interesse por ele. Nem que seja só para que nos calemos com o livro… Podemos também saltitar ao mesmo tempo que gritamos e abanamos as mãos no ar, a outra pessoa ficaria a morrer de curiosidade sobre o livro. Temos sempre a hipótese de libertar o psicopata que há em nós e fazermos esta espécie de homenagem a um livro que consideramos péssimo – porém o objectivo aqui é incentivar a leitura e não afastar a pessoa dela.


7. Filmes bem feitos com mensagens subliminares. Por filmes bem feitos baseados em livros refiro-me a filmes que são, realmente, bem feitos, e não àqueles que omitem metade da história para acrescentar uma metade totalmente nova e nem àqueles que transformam as personagens magras em gordas, loiras em morenas, vilões em santos (e vice-versa). Com um bom filme sobre um bom livro pode fazer-se um bom leitor.

A mensagem subliminar é elementar. Consiste meramente em, de qualquer maneira, transmitir a seguinte mensagem às pessoas que estão no cinema: “Vai comprar o livro e lê-o. Depois compra outro. E mais outro. E continua a comprar. Mas não te endivides.”

8. Música. Não é para transformar os escritores em músicos nem pôr os músicos a escrever (qual seria o resultado disso?). É somente fazer músicas sobre livros. Um resumo cantado, digamos assim. Por exemplo, o primeiro contacto que eu tive com Admirável Mundo Novo não foi com o livro mas com a música e o álbum dos Iron Maiden. E não há mal nenhum nisso, eu era criança e muito nova para ler Aldous Huxley.

9. Clube de leitura. Pelo que vi na televisão (é que aqui não há disso…), é uma reunião de amigos onde se fala sobre livros e onde se comem petiscos. Claro que amigos que não sabem patavina sobre livros podem participar no clube, já que o objectivo é divulgar a leitura. E um clube de leitura escusa ser só entre amigos. Escolas, bibliotecas ou ainda livrarias podem perfeitamente ter um clube de leitura para o público em geral (não só para alunos, para leitores ou para clientes habituais). E um clube de leitura ao ar livre? Num espaço verde e com… não, não vou continuar com a mesma lengalenga…
10. Fazermos algo de útil com as redes sociais. A maior parte dos meros mortais tem um facebook. Porque não fazer com que as pessoas nossas amigas íntimas a nível virtual ganhem um gostinho especial pela leitura? Ilustrações de livros em vez de fotos nossas em momentos embaraçosos, excertos atraentes de livros em vez da descrição do nosso dia-a-dia enfadonho, ligações para sites com e-books e audiobooks. As possibilidades são infinitas.

11. Andarmos atrás das pessoas com um livro na mão. Para quê? Para lhes lermos o livro. Talvez resulte. Provavelmente levamos com o livro na cabeça, mas irá valer a pena se a pessoa se interessar por ele.

12. Ler à beira das pessoas com um sorriso de satisfação. Se o nosso sorriso for bonito, e se dermos a entender que estamos realmente a apreciar o livro, é muito óbvio que a pessoa quererá saber porque o livro nos apraz. E assim faz-se mais um leitor. Talvez resulte, talvez a pessoa não nos ligue nenhuma.


Ficaram aqui enumeradas uma dúzia de maneiras para incentivar, divulgar e estimular a leitura, muitas das quais estapafúrdias mas que talvez resultem. Só nos resta, agora, tentar. E se fizermos mais um leitor, mais um amante de literatura, saberemos que contribuímos para um mundo melhor – pelo menos mais inteligente.

*Imagens encontradas no google.
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