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Não me peçam razões, de José Saramago

15/12/2013

Melancolia, de Edvard Munch (1895) - imagem daqui.

Não me peçam razões, que não as tenho,
Ou darei quantas queiram: bem sabemos
Que razões são palavras, todas nascem
Da mansa hipocrisia que aprendemos.

Não me peçam razões por que se entenda
A força de maré que me enche o peito,
Este estar mal no mundo e nesta lei:
Não fiz a lei e o mundo não aceito.

Não me peçam razões, ou que as desculpe,
Deste modo de amar e destruir:
Quando a noite é de mais é que amanhece
A cor de primavera que há-de vir.


Arrisco-me a dizer que a faceta de poeta de José Saramago não é tão conhecida como a de romancista - mas a qualidade dos seus poemas é tão boa como a dos seus livros. Este poema pode ser encontrado no livro Os Poemas Possíveis (da editora Caminho). Um excerto do mesmo, em pdf, pode ser lido aqui. 

Dia do Desassossego

16/11/2013

José Saramago. Imagem encontrada aqui.

16 de Novembro, dia do nascimento de José Saramago (que faria hoje 91 anos - ou faz, porque o autor já tem estatuto de imortal) e, agora, Dia do Desassossego. O Dia do Desassossego não é nada mais que ir para a rua e ler um livro, de preferência que desassossegue, um livro que nos ponha a reflectir sobre a condição humana e social, seja ela qual for, um livro que incomode, um livro que seja forte, um livro que nos mude.

«Vista à distância, a humanidade é uma coisa muito bonita, com uma larga e suculenta história, muita literatura, muita arte, filosofias e religiões em barda, para todos os apetites, ciência que é um regalo, desenvolvimento que não se sabe aonde vai parar, enfim, o Criador tem todas as razões para estar satisfeito e orgulhoso da imaginação de que a si mesmo se dotou. Qualquer observador imparcial reconheceria que nenhum deus de outra galáxia teria feito melhor. Porém, se a olharmos de perto, a humanidade (tu, ele, nós, vós, eles, eu) é, com perdão da grosseira palavra, uma merda. Sim, estou a pensar nos mortos do Ruanda, de Angola, da Bósnia, do Curdistão, do Sudão, do Brasil, de toda a parte, montanhas de mortos, mortos de fome, mortos de miséria, mortos fuzilados, degolados, queimados, estraçalhados, mortos, mortos, mortos. Quantos milhões de pessoas terão acabado assim neste maldito século que está prestes a acabar? (Digo maldito, e foi nele que nasci e vivo...) Por favor, alguém que me faça estas contas, dêem-me um número que sirva para medir, só aproximadamente, bem o sei, a estupidez e a maldade humana.»
José Saramago (citação retirada do site da Fundação José Saramago).

Deixo aqui, portanto, uma lista de livros que desassossegam, que tratam sobre a condição humana. Uma lista pequena, não muito significativa, mas que talvez seja útil. 
  • O Deus das Moscas, de William Golding
  • Cândido, de Voltaire
  • O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde
  • Caim, de José Saramago
  • As Intermitências da Morte, de José Saramago
  • A Voz Subterrânea, de Dostoiévski
  • Tempos Difíceis, de Charles Dickens
  • Os Demónios, de Dostoiévski
  • Werther, de Goethe
  • Diário de um Louco, de Nikolai Gógol
  • A Peste Escarlate, de Jack London
  • Crónica de uma Morte Anunciada, de Gabriel García Márquez
  • O Fio da Navalha, de Somerset Maugham
  • Utopia, de Thomas More
  • Cartas a um Jovem Poeta, de Rainer Maria Rilke
  • O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de José Saramago
  • Frankenstein, de Mary Shelley
  • Hamlet, de Shakespeare
  • Santa Miséria, de Frans Eemil Sillanpaa
  • Um Embuste Perfeito, de Italo Svevo
  • O Rapaz Perdido, de Thomas Wolfe
  • Oliver Twist, de Charles Dickens
  • Húmus, de Raul Brandão
  • Anotação do mal, de Jaime Rocha
  • Leite Derramado, de Chico Buarque
  • O Coração das Trevas, de Joseph Conrad
  • O Sonho de um Homem Ridículo
  • Máscaras do Destino, de Florbela Espanca
  • O Último Dia de um Condenado, de Victor Hugo
  • Os mortos mandam, de Vicente Blasco Ibañez
  • Onde Vivi e Para Que Vivi, de Henry David Thoreau
  • Sermões, de Padre António Vieira
  • De Profundis, de Oscar Wilde

Os livros não têm nenhuma ordem específica e estão presentes apenas obras literárias. Certamente faltarão livros ou, ainda, haverá livros que não têm lugar nesta lista - mas acredito que cada um tenha a sua lista de livros que incomodem (pelas mais variadas razões). Porque, enfim, o importante é permitir que um livro nos desassossegue.

Todos os Nomes, de José Saramago

21/07/2013

*O texto tem spoilers.

Imagem daqui.

Em poucas palavras, este é um livro arrebatador que relata a história de um funcionário da Conservatória Geral do Registo Civil que procura obstinadamente uma mulher que nunca viu na vida, conhecendo apenas o que consta no verbete do seu registo (que, acidentalmente, foi parar às mãos do Sr. José, o dito funcionário, a única personagem com nome deste romance).

O Sr. José faz colecção de recortes de revistas, jornais, etc. sobre pessoas famosas e, sentindo que a sua colecção é, de certo modo, defeituosa, decide completá-la com os registos que constam nos verbetes da Conservatória, à qual tem acesso através da sua casa.

É numa dessas buscas para complementar a sua colecção que, sem querer, o Sr. José acaba por levar consigo o verbete de uma mulher comum de trinta e seis anos, no qual «constam dois averbamentos, um de casamento, outro de divórcio».

«Como este verbete há de certeza centenas no ficheiro, senão milhares, portanto não se compreende por que estará o Sr. José a olhar para ele com uma expressão tão estranha, que à primeira vista parece atenta, mas que é também vaga e inquieta, possivelmente é este o modo de olhar de quem, aos poucos, sem desejo nem recusa, se vai desprendendo de algo e ainda não vê aonde poderá deitar a mão para tornar a segurar-se. Não faltará quem venha a apontar supostas e inadmissíveis contradições entre inquieto, vago e atento, são pessoas que se limitam a viver assim como assim, pessoas que nunca se encontraram com o destino pela frente.»

De facto, a partir do momento em que o Sr. José tem o verbete da mulher desconhecida, o seu destino passará a ser outro, resumir-se-á à procura da mulher, à obsessão que parece não ter fim. Nem ele próprio consegue perceber as razões da sua obstinada busca. Saramago define-a como uma «angústia metafísica» (se bem que referindo-se à colecção do funcionário); mais tarde, no final do romance, o tecto da casa do Sr. José aponta o amor como a causa principal dessa investigação.

«Que não tinhas nenhum motivo para ires à procura dessa mulher, a não ser, A não ser, quê, A não ser o amor, É preciso ser-se tecto para ter uma ideia tão absurda, Creio ter-te dito alguma vez que os tectos das casas são o olho múltiplo de Deus, Não me lembro, Se não to disse por estas precisas palavras, digo-o agora, Então diz-me também como poderia eu gostar de uma mulher a quem não conhecia, a quem nunca tinha visto, A pergunta é pertinente, sem dúvida, mas só tu é que poderás dar-lhe a resposta, Essa ideia não tem pés nem cabeça, É indiferente que tenha cabeça ou tenha pés, falo-te doutra parte do corpo, do coração, esse que vocês dizem ser o motor e a sede dos afectos, Repito que não podia gostar de uma mulher que não conheço, que nunca vi, salvo em alguns retratos antigos, Querias vê-la, querias conhecê-la, e isso, concordes ou não, já era gostar, Fantasias de tecto, Fantasias tuas, de homem, não minhas (…)»

O Sr. José não olha a meios para encontrar a mulher desconhecida ou, na melhor das hipóteses, encontrar informações sobre a sua vida: falsifica credenciais, invade a Conservatória, assalta uma escola (na qual encontra retratos da mulher), entrevista pessoas.

O Homem Duplicado, de José Saramago

03/01/2013

*Antes de mais nada, espero que os leitores tenham tido um bom Natal e que tenham, igualmente, um bom ano.

Capa do livro encontrada aqui.
 *O seguinte resumo contém spoilers.

Tertuliano Máximo Afonso é um professor de História do ensino secundário que, sofrendo de uma depressão, aceita a sugestão algo insistente do seu colega professor de Matemática e aluga um filme chamado Quem Porfia Mata Caça, de maneira a distrair-se, a abster-se das suas tristezas.

O filme não lhe aquece nem lhe arrefece, pelo que vai para a cama dormir. Acorda a meio da noite com a sensação de que alguém está em sua casa – mas não passa de uma impressão causada pela televisão e pelo filme. Decide rever o filme, esperançoso de que a causa da impressão se revele, quando, nem passados 20 minutos, vê um actor que é igual a si, sendo que «nem o próprio Tertuliano Máximo Afonso saberia dizer se o sono tornou a abrir-lhe os misericordiosos braços depois da revelação tremebunda que foi para ela a existência, talvez nesta mesma cidade, de um homem que, a avaliar pela cara e pela figura em geral, é o seu vivo retrato».

Desde esse momento, o homem fica perturbado e insiste em descobrir a identidade do actor (chamado António Claro, sendo Daniel Santa-Clara o seu nome artístico) – o que chega a fazer, apesar de todas as advertências do seu Senso Comum. Fala com o actor por telefone, que fica incrédulo, e concordam, os dois, encontrar-se.

Nesse encontro, verificam que são exactamente iguais: o rosto, o corpo, os sinais, as cicatrizes, as próprias impressões digitais. Resta agora saber o fundamental: quem é o original e quem é a cópia. Tertuliano Máximo Afonso descobre, talvez da pior maneira, que não passa do duplicado de António Claro.

Tertuliano Máximo Afonso chega mesmo a acreditar que a história acaba por aqui, só que, numa tentativa inconsciente de triunfar sobre o original, envia-lhe a barba postiça que usou nas suas missões de reconhecimento no bairro onde mora o actor – facto perturbante, tanto para António Claro como para sua esposa, Helena.

Passados dias, António Claro bate à porta de Tertuliano Máximo Afonso e anuncia-lhe que vai passar-se por ele e dormir com a sua noiva, Maria da Paz – ou isso, ou contar-lhe a verdade, a fenomenal história que Tertuliano Máximo Afonso lhe escondera.

Resignado com a situação, o professor aceita a proposta de António Claro, ficando um com a roupa, documentos, acessórios e carro do outro. Tertuliano Máximo Afonso não fica de braços cruzados, já que, por sua vez, se faz passar pelo actor e dorme com Helena.

Decide, na manhã seguinte, esperar por António Claro e ver, ao vivo, o seu triunfo, porém o outro não chega, e nem voltará a chegar. Exasperado pela espera, Tertuliano Máximo Afonso vai a uma cabine telefónica e telefona para casa de Maria da Paz, onde uma voz que lhe era desconhecida informa que a senhora morreu, com o seu noivo, num acidente de automóvel.

Está ali, vivo, mas para o resto da humanidade quem morreu foi ele próprio... mais a sua noiva, agora mais amada por ele. Tertuliano Máximo Afonso conta a sua história à mãe, desta vez de maneira detalhada e resolve contar o sucedido a Helena.

Ouvindo a estranha sucessão de factos, Helena propõe que Tertuliano Máximo Afonso substitua, de aquele momento em diante, o seu falecido marido – proposta que o professor aceita.

Sentado no sofá do seu novo lar, o telefone acontece de tocar, e do outro lado da linha está um homem com uma voz igual à sua, a perguntar por Daniel Santa-Clara, a relatar a estranhíssima coincidência de serem, eles dois, duas pessoas iguais.

Tertuliano Máximo Afonso vai de encontro a esse homem e leva a pistola de António Claro carregada.

Não se consegue pôr de lado, deixa-nos com o estômago às voltas a imaginar alguém do lado de fora da janela quando as luzes estão apagadas.
Palavras certíssimas e peremptórias de Poornima Mohandas [cit. por Fundação José Saramago - original aqui], falando d’ O Homem Duplicado. Inquietante seria, talvez, um adejectivo correcto para descrever a história de um homem que perde a essência do seu ser ao descobrir um outro homem em tudo igual a si: um perfeito duplicado, uma obra magistral da natureza.

Porém, não há adjectivos que consigam descrever plenamente esta narrativa: cada leitor terá o seu, da mesma maneira que cada leitor deste romance teria uma reacção diferente ao descobrir uma pessoa idêntica a si, não tendo eu muitas dúvidas que o desfecho da situação seria igual para todos.

Aliás, esta não deixa de ser uma questão pertinente: que faríamos nós, educados a pensar que somos únicos, irrepetíveis, se descobríssemos outra pessoa igual a nós, sendo nós a cópia? Que seria da nossa essência, que seria da nossa personalidade, que seria da nossa vida? Como lidar com o medo da possibilidade de essoutro roubar o que é nosso, os nossos amigos, os nossos familiares, os nossos amados? Como aguentar o terror da probabilidade de o outro fazer-nos a vida negra? Como suportar o facto de ser-se cópia?

São estas questões que este romance tenta elucidar, é a perda do ser (uma questão de identidade, portanto) que só tem uma única solução: matar ou morrer num mundo sem espaço para duplicados, sem espaço para duas pessoas iguais.

O Evangelho de Saramago e a opinião dos outros

31/07/2012

Imagem daqui.



«É a obra mais polémica de José Saramago e aquela que, indirectamente, o levou a sair de Portugal e a refugiar-se na ilha espanhola de Lanzarote. Ficou para a história o desentendimento com o então subsecretário de estado da Cultura Sousa Lara, que considerou o livro ofensivo para a tradição católica portuguesa e o retirou da lista do Prémio Europeu de Literatura. Com um José destroçado por ter fugido e deixado as crianças de Belém nas mãos dos assassinos de Herodes; com uma Maria dobrada e descrita, logo no início do livro, em pleno acto de conhecer homem; com um Jesus temeroso, um Judas generoso, uma Madalena voluptuosa, um Deus vingativo e um Diabo simpático, não era de esperar outra reacção das almas mais sensíveis e mais devotas do catolicismo português. E verdadeiramente viperinas são as várias páginas onde o escritor português se entretém a descrever minuciosamente os nomes e a forma como morreram os mártires dos primeiros séculos do cristianismo. Assim se escreveram os heréticos Evangelhos segundo Saramago, para irritação de muitos e prazer de alguns. Como convém.» (Diário de Notícias, 9 de Outubro de 1998)

Talvez por me ter tornado ateia que não consiga perceber como o Evangelho segundo Jesus Cristo poderá ter ofendido várias sensibilidades quando foi editado. Aliás, não tendo eu qualquer crença, nunca um livro me afrontará, o que me leva a colocar a questão se, fosse eu crente, continuaria a ler este tipo de narrativas de uma maneira imparcial e benevolente.

Acima de tudo, quer crente ou descrente, sou respeitadora da opinião dos outros e, igualmente, da literatura e da arte em geral, acreditando que qualquer um de nós pode exprimir essa mesma opinião, sem que ofenda mortalmente outras pessoas.

Ofender… sempre haverá alguém que ficará ofendido, pois sempre haverá alguém do contra e nem se pode agradar a todos; o máximo que poderei afirmar, neste contexto, é que uma pessoa é livre de exprimir a sua opinião desde que não interfira com a felicidade dos outros indivíduos.

Mexer com a felicidade dos outros através da opinião é dificílimo, senão mesmo impossível, pois como poderá uma opinião tornar-nos felizes ou infelizes? É uma opinião, diríamos nós, todos a têm, estão no seu direito, se nos fôssemos importar com todas as opiniões não faríamos mais nada…

É neste patamar que coloco os livros e quem os escreve. Como expressão de opinião e como formadores dela (lembremo-nos que até na história mais fantasiosa o autor coloca nela parte de si), não nos podemos sentir fatalmente atacados por eles, a não ser, claro está, que o livro seja propositadamente escrito para nós (e só para nós).

Em boa verdade, ninguém é obrigado a ler o que não quer no seu tempo livre (excluo aqui, obviamente, os livros que se leem por obrigação académica), portanto não vejo o mal que um livro poderá causar – até porque um livro só provoca o bem-estar de uma pessoa.

Naturalmente, com as ofensas causadas por um livro, vêm as críticas. A principal delas, estou em crer, é a de que, sendo Saramago descrente, não deveria analisar os meandros, as miudezas e as minuciosidades da religião – deduzindo-se, daqui, que não teria domínio para tal. O livro, inclusive, foi eliminado da lista de livros portugueses candidatos ao Prémio Europeu de Literatura (pelo que, anos depois, o Nobel ganho por Saramago deve ter sido um estalo de luva branca àqueles que vetaram O Evangelho segundo Jesus Cristo).

Pois é precisamente pelo escritor ter conhecimento do que está a narrar que tem o pleno direito de criticar. Lembrei-me, neste âmbito, de Nietzsche, que estudou Teologia e depois escreveu obras como O Anticristo – sabendo, genuinamente, do que estava a escrever.

O conhecimento bíblico de Saramago é comprovado pelo próprio livro, que não é fácil de entender por quem não sabe patavina de religião (eu) – nada que umas pesquisas aqui e umas perguntas acolá não resolvam.

O meu ponto de vista é que estas críticas de Saramago não poder falar de religião porque, primeiro, é ateu, segundo, por ser ateu, não teria conhecimento da religião, são bastante e incrivelmente infundadas.

Se o autor tem um pleno conhecimento dos assuntos religiosos, porque não falar deles, quer a bendizê-los ou a maldizê-los? A questão, aqui, é que o escritor, sendo conhecedor dos assuntos que narra, tem autoridade para o fazer. Pior seria se decidisse escrever um livro deste calibre sem ter qualquer ciência no assunto – um verdadeiro escândalo.

Não nego que o livro seja uma crítica aberta à religião cristã, que o é, apenas afirmo que é uma crítica muitíssimo válida, independentemente das crenças ou descrenças do autor. O problema, arrisco-me a dizer, é que o livro, como qualquer outro, foi levado à letra, e não foi interpretado como o que é, ou seja, como uma obra literária.

Caim, de José Saramago

19/12/2010


José Saramago. Outro autor que certamente dispensará qualquer apresentação, de tão bem conhecido que é. O seu nome esteve sempre envolto em polémicas, quer pelas opiniões do próprio escritor ou simplesmente porque as pessoas não são capazes de perceber a sua obra literária. Talvez o maior problema do mundo literário seja este: o só se entender as grandes obras muito depois de elas terem sido feitas.

Caim não é excepção à regra. Confesso, comprei este livro (há um ano) por curiosidade, curiosidade de saber a razão de tal polémica: em suma, neste obra Saramago coloca deus como autor moral de um crime.

De que fala, então, o livro? Esta obra relata-nos a história de caim, que matou o seu irmão abel por este ser o preferido do senhor. Quando o senhor vai condenar caim, este põe a culpa para as suas costas, afirmando que se deus não preferisse o sacrifício de seu irmão abel, não o teria matado.

Nisto, o senhor concorda em não castigar caim e nem deixar que nada lhe aconteça (nomeadamente ser morto), marcando-lhe a testa. A partir daqui, caim viaja para longe, no tempo e no espaço, e assiste a vários episódios bíblicos, por exemplo, a construção torre de Babel ou o grande dilúvio, que vão desde a árvore do fruto proibido até à arca de noé.

Normal é que a viagem de caim é relatada com as interpretações de Saramago dos episódios bíblicos, interpretação essa que é simples: o senhor é tão boa pessoa quanto nós, humanos - e o facto de o autor escrever o nome do senhor com letra minúscula dá-nos a ideia de que deus não é mais que nós, seres humanos.

Quer dizer, além de tão filho da puta como o senhor, abraão era um refinado mentiroso, pronto a enganar qualquer um com a sua língua bífida, que, neste caso, segundo o dicionário privado do narrador desta história, significa traiçoeira, pérfida, aleivosa, desleal e outras lindezas semelhantes. (…) Que vai você fazer, velho malvado, matar o seu próprio filho, queimá-lo, é outra vez a mesma história, começa-se por um cordeiro e acaba-se por assassinar aquele a quem mais se deveria amar, Foi o senhor que ordenou, foi o senhor que ordenou, debatia-se abraão.

Saramago, neste livro, não é o anti-cristo nem o diabo, é apenas um escritor com uma filosofia de vida e com uma mensagem a transmitir, também ela bastante simples: não se pode ser-se dogmático.

A ideia foi do senhor, que queria tirar a prova, A prova de quê, Da minha fé, da minha obediência, E que senhor é esse que ordena a um pai que mate o seu próprio filho, É o senhor que temos, o senhor dos nossos antepassados, o senhor que já cá estava quando nascemos, E se esse senhor tivesse um filho, também o mandaria matar, perguntou isaac, O futuro o dirá, Então o senhor é capaz de tudo, do bom, do mau e do pior, Assim é, Se tu tivesses desobedecido à ordem, que sucederia, perguntou isaac, O costume do senhor é mandar a ruína, ou uma doença, a quem lhe falhou, Então o senhor é rancoroso, Acho que sim (…)

A mensagem é mesmo esta: devemos questionar os dogmas da religião, saber o que é certo e o que é errado, aceitar o certo e contestar o errado, em suma, pensarmos por nós próprios, e não por quem interpretou a religião por nós.

Este episódio, que deu origem à primeira definição de um até ignorado pecado original, nunca ficou bem explicado. Em primeiro lugar, mesmo a inteligência mais rudimentar não teria qualquer dificuldade em compreender que estar informado sempre será preferível a desconhecer, mormente em matérias tão delicadas como são estas do bem e do mal, nas quais qualquer um se arrisca, sem dar por isso, a uma condenação eterna num inferno que então ainda estava por inventar. Em segundo lugar, brada aos céus a imprevidência do senhor, que se realmente não queria que lhe comessem tal fruto, remédio fácil teria, bastaria não ter plantado a árvore, ou ir pô-la noutro sítio, ou rodeá-la por uma cerca de arame farpado. (…)

A história desenvolve-se em torno de deus ser autor moral de um crime. Pensemos por esta perspectiva: se deus criou o mundo e tudo que existe nele, e no mundo há o bem e o mal, porque não o poderemos condenar por um crime moral? Se deus não quer o mal, porque o permite? A questão que Saramago coloca, efectivamente, é a de que porque permitiu deus que caim matasse abel?

Que fizeste com o teu irmão, perguntou, e caim respondeu com outra pergunta, Era eu o guarda-costas de meu irmão, Mataste-o, Assim é, mas o primeiro culpado és tu, eu daria a vida a vida pela vida dele se tu não tivesses destruído a minha, Quis pôr-te à prova, E tu quem és para pores à prova o que tu mesmo criaste, Sou o dono soberano de todas as coisas, E de todos os seres, dirás, mas não de mim nem da minha liberdade, Liberdade para matar, Como tu foste livre para deixar que eu matasse a abel quando estava na tua mão evitá-lo (…)

Este livro está repleto destas pequenas discussões, entre deus e caim, se assim as poderemos considerar, onde Saramago demonstra que caim deveria ser o nosso modelo: o modelo duma pessoa que pensa por si mesma, que questiona deus, o porquê disto e o porquê daquilo, talvez não por uma incansável procura do saber, mas por não concordar com o que o senhor faz.

O ciúme é o seu grande defeito, em vez de ficar orgulhoso dos filhos que tem, preferiu dar voz à inveja, está claro que o senhor não suporta ver uma pessoa feliz (…)

A bem dizer, este livro não é contra o cristianismo (sendo apenas um ponto de vista expresso duma óptima maneira) mas sim contra o conformismo de muitos seguidores desta religião. Em suma, este livro é um apelo a quer tenhamos uma mente aberta…

*O nome das personagens apresentam-se com letra minúscula, como o estão no próprio livro.
**Mais sobre a obra e a respectiva polémica aqui.
***Na imagem, uma caricactura do escritor que representa como a Igreja o vê. 
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