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Estou cansado, é claro, de Fernando Pessoa (Álvaro de Campos)

26/01/2014

Quadro de Cézanne, encontrado aqui.
Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto —
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo...

E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente: eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto me dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.

Não me peçam razões, de José Saramago

15/12/2013

Melancolia, de Edvard Munch (1895) - imagem daqui.

Não me peçam razões, que não as tenho,
Ou darei quantas queiram: bem sabemos
Que razões são palavras, todas nascem
Da mansa hipocrisia que aprendemos.

Não me peçam razões por que se entenda
A força de maré que me enche o peito,
Este estar mal no mundo e nesta lei:
Não fiz a lei e o mundo não aceito.

Não me peçam razões, ou que as desculpe,
Deste modo de amar e destruir:
Quando a noite é de mais é que amanhece
A cor de primavera que há-de vir.


Arrisco-me a dizer que a faceta de poeta de José Saramago não é tão conhecida como a de romancista - mas a qualidade dos seus poemas é tão boa como a dos seus livros. Este poema pode ser encontrado no livro Os Poemas Possíveis (da editora Caminho). Um excerto do mesmo, em pdf, pode ser lido aqui

Sangue, de Saúl Dias

21/03/2013

Em primeiro lugar, mil desculpas pelas poucas vezes que venho actualizar o hvr. Ando a ler o mesmo grande livro há várias semanas, e a isto acresce o facto de eu ter de estudar, etc., etc.. Falemos somente de coisas boas.

Como já é tradição do hvr, no Dia Mundial da Poesia há, pasme-se, poemas. Desta vez, sobre o próprio acto de escrever poesia. O poema que se segue é da autoria de Saúl Dias e tem como título Sangue.

Versos
escrevem-se
depois de ter sofrido.
O coração
dita-os apressadamente.
E a mão tremente
quer fixar no papel os sons dispersos...

É só com sangue que se escrevem versos. 



*Mais sobre o prolífero autor aqui.
*Imagem: quadro de Mats Eriksson, encontrado aqui.

A Morte, esse Lugar-Comum - de Alexandre O'Neill

15/10/2012


Morte e Vida, de Gustav Klimt (1916) - imagem encontrada aqui

É trivial a morte e há muito se sabe
fazer - e muito a tempo! - o trivial.
Se não fui eu quem veio no jornal,
foi uma tosse a menos na cidade...

A caminho do verme, uma beldade
— não dirias assim, Gomes Leal? —
vai ser coberta pela mesma cal
que tapa a mais intensa fealdade.

Um crocitar de corvo fica bem
neste anúncio de morte para alguém
que não vê n'alheia sorte a própria sorte...

Mas por que não dizer, com maior nojo,
que um menino saiu do imenso bojo
de sua mãe, para esperar a morte?...

[fim do poema]

Angústia, de Florbela Espanca

08/10/2012



Tortura do pensar! Triste lamento!
Quem nos dera calar a tua voz!
Quem nos dera cá dentro, muito a sós,
Estrangular a hidra num momento!

E não se quer pensar! ... e o pensamento
Sempre a morder-nos bem, dentro de nós ...
Querer apagar no céu – ó sonho atroz! –
O brilho duma estrela, com o vento! ...

E não se apaga, não ... nada se apaga!
Vem sempre rastejando como a vaga ...
Vem sempre perguntando: “O que te resta? ...”

Ah! não ser mais que o vago, o infinito!
Ser pedaço de gelo, ser granito,
Ser rugido de tigre na floresta! 

*Imagem encontrada aqui.

Ódio - poema de Renato de Caldevilla

25/07/2012

Capa da revista
Um dia destes estava a navegar pela internet quando dei de caras com a revista literária portuguesa Bandarra, de 1953, publicada online na Página Literária do Porto. A revista funcionava, parece-me, mais como divulgação de trabalhos na área (contos e poesia) do que propriamente como crítica - havendo, mesmo assim, recensão de novas publicações e estudos dos clássicos.

A edição número 1 da revista é recheadíssima de óptimo conteúdo, com alguns artigos pertinentes de crítica social que, nas suas linhas gerais, continuam a ser actuais. No que toca à poesia, encontrava-se lá, entre outros, este poema de Renato de Caldevilla que aqui transcrevo (com a grafia da época).

Sinto-me perseguido pelo ódio…
Eu quero odiar tudo e todos,
Porque só me sentirei bem entre o ódio;
O ódio como meu único amigo,
O ódio como razão do meu ser,
O ódio a alimentar o meu sangue,
A embriagar a minha dor…
Como é bom poder-se odiar!
Só ódio pode haver em mim!
Eu posso odiar como ninguém,
Posso odiar e despresar,
Pulverizar tudo o que me rodeia,
Porque o ódio pulveriza corações… ilusões…
O ódio é um amigo que nos acompanha pelo deserto da ingratidão!
Mas se um dia encontrar neste meu ódio,
Refrigério de uma ilusão que perdi,
Então terei odiado como jamais alguém odiou!
Só então direi adeus ao ódio.
Só então ao despedir-me dele sentirei saudades,
Porque ele foi meu amigo, um amigo caro!
E irei com ele até à estação a que chamam Caridade, vê-lo partir.
E depois, não poderei abandonar essa estação com saudades!
E ouvirei o silvo que não é dele, mas que me diz que se afasta!
E o fumo passará, passarão os tempos e eu ficarei…
E só verei então fumo…
E uma voz chamará por mim…
É ela… Corro, mas as minas pernas ficam inertes…
E ela quer que eu vá, mas não posso… Olharei para o tempo!
Tempo infinito marcado pelo grande relógio da estação Caridade!
Só então saberei que não há horas… que o comboio partiu…
E o ódio foi também.
E eu não poderei sair de onde estou…
Larga-me oh preconceito estúpido,
Larga-me oh terrível mão que não deixas ir para ela!
E sufoco… estouro… rebento…
Mas palavras segredam-me muito baixo…
Ódio… ódio… ódio…


Para quem quiser ler mais da obra do poeta, pode sempre verificar o índice da Versiones, uma revista literária de divulgação de trabalhos da área em português e castelhano, na qual foi colaborador.

Urgentemente

02/06/2012

Um poema lindíssimo de Eugénio de Andrade. Palavras sábias que, nos tempos que correm, são mais do que necessárias.


É urgente o Amor,
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros,
e a luz impura até doer.
É urgente o amor,
É urgente permanecer.



*Quadro do Klimt daqui.

Olimpo

02/04/2012

Venho-vos aqui apresentar um bonito poema de Ricardo Reis, que para quem não sabe, é um heterónimo de Fernando Pessoa.

Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

 Nesta quadra somos aconcelhados a apenas nos concentrar na nossa vida, já que tudo o resto é apenas vestigios da vida das outras pessoas.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.

O que nós esperamos da vida podemos tê-lo, desde que nos centremos em nós próprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses. 

Se estivermos sozinhos, levaremos a vida calmamente, sem grandes confusões. O mesmo se aplica se apenas vivermos, sem pensarmos muito.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses. 

Devemos apreciar a vida, e não ponderarmos sobre a nossa existência, pois esta resposta é inalcançavel.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam. 

No entanto, podemos sempre viver como deuses, controlando tudo e viver honradamente, e simplesmente respeitando-nos.

Dia Mundial da Poesia

21/03/2012

O Dia Mundial da Poesia é, oficialmente, a 21 de Março, mas para os leitores ávidos são todos os dias, certo? Apesar de preferir a prosa em detrimento da poesia, não posso deixar de ficar contente com esta data - porque é sempre bom, na minha opinião, lembrar alguma coisa que tenha que ver com literatura.

Normalmente, esta data coincide com a chegada da Primavera - o que não aconteceu este ano, devido ao facto de ser um ano bissexto. Desconheço a razão desta efeméride ser comemorada no dia da chegada da estação, mas não consigo descobrir outra coisa que mais tenha que ver com a poesia do que a Primavera, e vice-versa. Diria mesmo que as duas coisas foram feitas para andarem de mãos dadas.

21 de Março, também, é o Dia da Árvore. Assim, para comemorar a poesia, a Primavera - estação por excelência poética - e a árvore, eis um poema de Jorge Sousa Braga que engloba isso tudo.

Imagem daqui. Clicar para aumentar.
Feliz dia para todos os leitores.

Depoimento

14/02/2012

Depoimento = testemunho

Aqui um bonito poema de Miguel Torga, o qual vou analizar, verso a verso (mais coisa menos coisa)

Foi na vida real como nos sonhos:
Nunca pisei um chão de segurança. 

O sujeito poético nunca teve um ponto firme.

Procuro na lembrança 
um sólido caminho percorrido, 
e vejo sempre um barco sacudido 
pelas ondas raivosas do destino: 

Ora pois, o pobre coitado do homem nunca teve calmaria: a sua vida foi sempre uma montanha russa. E por isso culpa o destino, a.k.a Providencia.

Um barco inconsciente de menino,

Uma vida (sim, barco = vida) ingénua, própria de uma criança.

um barco temerário de rapaz, 

uma vida aventureira de adolescente,

e um barco de homem, que já não domino 
entre os rochedos onde se desfaz. 

E a sua vida de adulto, sobre a qual já não consegue conter, e que se despenha, se destrói entre os obstáculos da vida. Os três barcos significam o percurso da vida, já agorinha.

Mas o céu era belo 
quando à noite o seu dono o acendia; 

Quando vinha o dia.

e era belo o sorriso da poesia,

A poesia convidava-o à convivência consigo, a escrever.

e belo o amor, dragão insatisfeito. 

O amor era grande, e perigoso, tal como um dragão. É uma metáfora, para quem esteja a pensar que se calhar haveria ali um recurso estilístico.

E era belo não ter dentro do peito nem medo, 
nem remorsos, nem vaidade. 

E seria Maravilhoso não ter sentimentos impuros dentro da alma.

Por isso digo que valeu a pena 
a dura realidade 
desta viagem trágico-terrena 
sempre batida pela tempestade. 

E é por isso (pela poesia, pelo amor, e pelos sentimentos, pelas todas as coisas boas da vida) que a sua vida cheia de altos e baixos valeu a pena.

Digam lá se não é bonito?

Não penses, meu amor..., de Aleksandr Pushkin (tradução de Jorge de Sena)

27/03/2011


Não penses, meu amor, que no meu seio guardo
o tumultuar do sangue, o frenesi de que ardo,
os uivos dela, os gritos de bacante em cio,
quando, como unia cobra, sob mim se torce,
e em beijos que remordem e na carícia urgente

vem o estertor final da consumada posse.
Mais doce és tu, amor, tão sossegada e calma –
pelo prazer dorido com que eu sou da tua alma
quando, após longamente suplicar-te ansioso,
com pudica modéstia cedes ao meu gozo
e a mim te dás enfim, mas desviando o olhar.

*Poema encontrado aqui.
*Quadro de Almada Negreiros, encontrado neste site.

Pedra Filosofal

26/03/2011

Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida,
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.

A minha dor, de Florbela Espanca



A minha Dor é um convento ideal
Cheio de claustros, sombras, arcarias,
Aonde a pedra em convulsões sombrias
Tem linhas dum requinte escultural.

Os sinos têm dobres de agonias
Ao gemer, comovidos, o seu mal...
E todos têm sons de funeral
Ao bater horas, no correr dos dias...

A minha Dor é um convento. Há lírios
Dum roxo macerado de martírios,
Tão belos como nunca os viu alguém!

Nesse triste convento aonde eu moro,
Noites e dias rezo e grito e choro,
E ninguém ouve...ninguém vê...ninguém...

*Quadro de Munch, encontrado neste site.

Cidade, rumor e vaivém sem paz nas ruas, de Sophia de Mello Breyner Andresen

25/03/2011


Cidade, rumor e vaivém sem paz das ruas,
Ó vida suja, hostil, inutilmente, gasta,
Saber que existe o mar e existem praias nuas,
Montanhas sem nome e planícies mais vastas
Que o mais vasto desejo,
E eu estou em ti fechada e apenas vejo
Os muros e as paredes e não vejo
Nem o crescer do mar nem o mudar das luas.


Saber que tomas em ti a minha vida
E que arrastas pela sombra das paredes
A minha alma que fora prometida
Às ondas brancas e às florestas verdes.

*Quadro de Matisse, encontrado neste site.

The Vagabond, de Robert Louis Stevenson

24/03/2011


Give to me the life I love,
Let the lave go by me,
Give the jolly heaven above
And the byway nigh me.
Bed in the bush with stars to see,
Bread I dip in the river -
There's the life for a man like me,
There's the life for ever.

Let the blow fall soon or late,
Let what will be o'er me;
Give the face of earth around
And the road before me.
Wealth I seek not, hope nor love,
Nor a friend to know me;
All I seek, the heaven above
And the road below me.

Or let autumn fall on me
Where afield I linger,
Silencing the bird on tree,
Biting the blue finger.
White as meal the frosty field -
Warm the fireside haven -
Not to autumn will I yield,
Not to winter even!

Let the blow fall soon or late,
Let what will be o'er me;
Give the face of earth around,
And the road before me.
Wealth I ask not, hope nor love,
Nor a friend to know me;
All I ask, the heaven above
And the road below me.

*Poema retirado deste site.
*Quadro de Paul Turner Sargent encontrado neste site.

Porque

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

Verdes São os Campos

23/03/2011

´

Verdes são os campos,
De cor de limão:
Assim são os olhos
Do meu coração.

Campo, que te estendes
Com verdura bela;
Ovelhas, que nela
Vosso pasto tendes,
De ervas vos mantendes
Que traz o Verão,
E eu das lembranças
Do meu coração.

Gados que pasceis
Com contentamento,
Vosso mantimento
Não no entendereis;
Isso que comeis
Não são ervas, não:
São graças dos olhos
Do meu coração.

O Corvo, de Edgar Allan Poe (tradução de Fernando Pessoa)


Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais
«Uma visita», eu me disse, «está batendo a meus umbrais.
       É só isso e nada mais.»


Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P'ra esquecer (em vão) a amada, hoje entre hostes celestiais —
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
       Mas sem nome aqui jamais!


Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundindo força, eu ia repetindo,
«É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
       É só isso e nada mais».


E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
«Senhor», eu disse, «ou senhora, decerto me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi...» E abri largos, franquendo-os, meus umbrais.
       Noite, noite e nada mais.


A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais —
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.
       Isto só e nada mais.


Para dentro estão volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
«Por certo», disse eu, «aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais.»
Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.
       «É o vento, e nada mais.»


Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou sobre meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais.
Foi, pousou, e nada mais.


E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
«Tens o aspecto tosquiado», disse eu, «mas de nobre e ousado,
Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais.»
       Disse-me o corvo, «Nunca mais».


Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos seus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,
       Com o nome «Nunca mais».


Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
Perdido, murmurei lento, «Amigo, sonhos — mortais
Todos — todos lá se foram. Amanhã também te vais».
       Disse o corvo, «Nunca mais».


A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
«Por certo», disse eu, «são estas vozes usuais.
Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,
E o bordão de desesp'rança de seu canto cheio de ais
       Era este «Nunca mais».


Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
Que qu'ria esta ave agoureira dos maus tempos ancestrais,
Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,
       Com aquele «Nunca mais».


Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
No veludo onde a luz punha vagas sombras desiguais,
Naquele veludo onde ela, entre as sombras desiguais,
      Reclinar-se-á nunca mais!


Fez-me então o ar mais denso, como cheio dum incenso
Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
«Maldito!», a mim disse, «deu-te Deus, por anjos concedeu-te
O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!»
       Disse o corvo, «Nunca mais».


«Profeta», disse eu, «profeta — ou demónio ou ave preta!
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais,
Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!»
       Disse o corvo, «Nunca mais».


«Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!, eu disse. «Parte!
Torna à noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!»
       Disse o corvo, «Nunca mais».


E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha dor de um demónio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão mais e mais,
E a minh'alma dessa sombra, que no chão há mais e mais,
       Libertar-se-á... nunca mais!


*Poema encontrado neste site, onde pode ser lida também a versão original do mesmo.
*Quadro de Thomas Hooper, encontrado aqui.

Curiosidades Estéticas

22/03/2011

O mais importante na vida
É ser-se criador - criar beleza.

Para isso,
É necessário pressenti-la
Aonde os nossos olhos não a virem.

Eu creio que sonhar o impossível
É como que ouvir uma voz de alguma coisa
Que pede existência e que nos chama de longe.

Sim, o mais importante na vida
É ser-se criador.
E para o impossível
Só devemos caminhar de olhos fechados
Como a fé e como o amor.

Autopsicografia, de Fernando Pessoa

É um poema bastante conhecido, é (quase) um cliché da literatura portuguesa. Mas porque não o colocar aqui, se explica o trabalho dum poeta e, até, do leitor?



O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.


E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.


E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.




*Imagem: quadro de Cézanne, encontrado aqui.
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