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Estou cansado, é claro, de Fernando Pessoa (Álvaro de Campos)

26/01/2014

Quadro de Cézanne, encontrado aqui.
Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto —
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo...

E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente: eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto me dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.

Olimpo

02/04/2012

Venho-vos aqui apresentar um bonito poema de Ricardo Reis, que para quem não sabe, é um heterónimo de Fernando Pessoa.

Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

 Nesta quadra somos aconcelhados a apenas nos concentrar na nossa vida, já que tudo o resto é apenas vestigios da vida das outras pessoas.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.

O que nós esperamos da vida podemos tê-lo, desde que nos centremos em nós próprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses. 

Se estivermos sozinhos, levaremos a vida calmamente, sem grandes confusões. O mesmo se aplica se apenas vivermos, sem pensarmos muito.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses. 

Devemos apreciar a vida, e não ponderarmos sobre a nossa existência, pois esta resposta é inalcançavel.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam. 

No entanto, podemos sempre viver como deuses, controlando tudo e viver honradamente, e simplesmente respeitando-nos.

Autopsicografia, de Fernando Pessoa

22/03/2011

É um poema bastante conhecido, é (quase) um cliché da literatura portuguesa. Mas porque não o colocar aqui, se explica o trabalho dum poeta e, até, do leitor?



O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.


E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.


E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.




*Imagem: quadro de Cézanne, encontrado aqui.
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