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Algumas ilustrações de contos de Edgar Allan Poe

09/09/2012

Eu sempre acalentei esperanças, ainda que mínimas, de que alguém usasse o facebook para fazer verdadeiros serviços públicos e não apenas para impingir a sua vidinha aos outros. Eis que, então, uma página dedicada a Edgar Allan Poe decide compartilhar ilustrações de alguns dos seus contos (acompanhadas com as devidas citações), fazendo-me acreditar, assim, que o facebook tem alguma utilidade.

As ilustrações deste post foram retiradas na já mencionada página do facebook (ainda assim, as fontes/links de cada imagem estão presentes na respectiva legenda).

Ilustração d'O Barril de Amontillado, de Harry Clarke. Daqui.

Na Sombra com Edgar Allan Poe

23/01/2012

Imagem daqui.
O génio visionário de Poe, poeta de projecções sombrias e, de amplos recursos, teve a sua amplificação refulgente em histórias seladas pelo mistério, cravadas a terror e traçadas por linhas negras que conquistaram o espaço do fantástico, sendo elegidas como fonte de inspiração para uma aclamada renovação literária europeia no final do séc. XIX.

As feridas abertas, as dores agudas, a instabilidade emocional e um passado lúbrico marcaram o desespero e o tormento de um homem que o conduziram para uma espécie de hecatombe interior, tornando Poe numa figura moribunda e abandonada.

Partes da introdução


Ora este é um livro interessantíssimo, não só por, naturalmente, reunir alguns contos de Poe, mas também pela própria escolha dos textos. Passo a explicar-me: tem algumas narrativas de horror/fantasia tão características do escritor e “os outros” contos.

Digo “os outros” porque não consegui classificá-los. São uma mistura de ensaios, de pequenas histórias humorísticas e de narrativas, digamos, normais. Eis a lista de histórias presentes no livro:

Sombra (uma parábola)
Leonor
As Mil e Duas noites de Scheherazade
O Diabo no Campanário
O Poder das Palavras
A Máscara da Morte Vermelha
Pequena Conversa com uma Múmia
O Enterro Prematuro
Morella
Três Domingos Numa Semana
O Anjo do Extraordinário
O Demónio da Perversidade
Quatro Bestas em uma: o homem cameleopardo
A Caixa Oblonga

Alguns destes contos podem ser “os outros”, mas a escrita permanece igual à que Poe nos habituou: uma escrita lindíssima, com uma linguagem eloquente, no entanto fácil de entender. Acredito que o principal ponto forte de Poe é a sua escrita cativante, que nos faz sempre virar a página.

Li por aí, algures na internet, que Edgar Allan Poe é um escritor chato e enfadonho, na medida em que se perde em longas descrições. Como sou pessoa que respeita a opinião dos outros, naturalmente que não fiquei ofendida, apesar de discordar daquele ponto de vista. Curioso é que, alguns contos, como Morella, por exemplo, parece que precisam de ainda mais descrições (porque parece-me que o final foi demasiado rápido).

Sim, é verdade, Poe faz longas descrições, porém não as considero chatas ou desnecessárias: muitas vezes são elas que dão o horror à história, ou que as torna especiais. Talvez seja suspeita ao falar, porque sou pessoa que só considera descrições como sendo chatas quando estas se tornam repetitivas, isto é, dizer duas, três ou mais vezes a mesmíssima coisa: e isso não acontece com Poe.

O livro conta ainda com uma excelente introdução, a contextualizar a vida e a obra de Edgar Allan Poe – pois, creio eu, nunca é demais as informações sobre a vida de um escritor e o que o leva a escrever o que escreve.

Para mim, as histórias de destaque são O Diabo no Campanário e Três Domingos Numa Semana porque me surpreenderam bastante. Se me apresentassem aquelas histórias sem me dizerem quem as tinha escrito, eu nunca iria dizer que foram escritas por Poe. Isto significa que Allan Poe era um escritor versátil.

Destaque também para a capa do livro. Não que seja uma capa espampanante, mas uma capa que tenha caveiras sempre será bem-vinda na minha prateleira.

*Livro da Planeta Editora, de 2006.

Contos Fantásticos, de Allan Poe

23/06/2011


Como está no título, o livro é composto por contos, onze, para ser mais precisa.Vou fazer um resumo de cada um deles.

O primeiro é Metzengerstein.

Este conto é húngaro, e conta a história de duas famílias rivais, Berlifitzing e Metzengerstein. Esta era mais rica do que a primeira.
Wilhelm era o conde de Berlifitzing, que tinha uma idade avançada, mas nem por isso deixara de praticar as suas paixões: caçadas e cavalos. No entanto, o único herdeiro dos Metzengerstein tinha ficado órfão aos dezoito anos de idade, aproveitava a fortuna festejando e fazendo orgias, incluindo os criados. Uma tarde mandou atear fogo aos estábulos da família rival. Enquanto o fogo persistia, o jovem apreciava as pinturas e tapeçarias dos seus antepassados, e reparou num cavalo com olhos que pareciam que estavam vivos, que nunca tinha antes reparado. E então sabe que o velho rival morrido entre as chamas dos estábulos a tentar salvar o seu cavalo preferido.
O jovem é chamado às portas do palácio, pois encontraram um cavalo gigantesco. Metzengerstein reconhece o animal de uma tapeçaria que tinha visto há pouco, e fica apaixonado pelo animal, e é ele apenas que o consegue domar.
Nos dias seguintes, o cavalo e o cavaleiro eram pareciam um só, pois o jovem apenas estava com o cavalo.
Numa noite tempestuosa, o jovem acorda e sai a correr do palácio, e monta no seu cavalo, que o leva para longe. Os criados acordaram e viram que o castelo estava a arder, e fugiram. E então viram o seu amo, cavalgando a sua montada saltar para o meio das chamas do castelo. A tempestade acalmou, e por cima das chamas ergue-se uma grande quantidade de fumo em forma de um cavalo gigantesco.


o segundo é... Ligeia!

Ligeia era uma mulher inteligente, com uma voz suave e profunda, e uma beleza rara, pois não obedecia aos padrões de beleza da antiguidade. O narrador estava casado com ela, e amava profundamente os seus olhos, grandes, pretos, as pestanas cor de jade muito compridas, as sobrancelhas tinham a mesma cor. O narrador meditava sobre a beleza destes olhos.
Até que Ligeia adoeceu. Numa noite, antes de morrer, obrigou o narrador a decorar este poema:

"Reparai! é noite de gala
Desde estes últimos anos desolados!
Uma multidão de anjos, alados, enfeitados
Com véus, e afogados em lágrimas,
Acha-se sentada num teatro, para ver,
Um drama de esperança e de temores,
Enquanto a orquestra suspira espaçadamente
A musica das esferas.

Mimos, feitos à imagem do Deus muito alto,
Resmungam e rezingam baixinho
E adejam por aqui e por ali;
Pobres bonecos que vão e vêm
Segundo o comando dos imensos seres sem forma
Que transportam a cena de um lado para o outro,
Sacudindo com as suas asas de condor
A invisível Desgraça!

Este drama matizado oh! decerto
Não será olvidado,
Com o seu Fantasma eternamente perseguido
Por uma multidão que não pode agarrá-lo,
Através de um próprio círculo que se volta sempre
Sobre si próprio, exactamente no mesmo ponto!
E muita Loucura, e ainda mais Pecado
E Horror constituem a alma da intriga!

Mas reparai que através da confusão dos mimos,
Uma forma rastejante faz a sua entrada!
Uma coisa tinta de sangue que chega torcendo-se
Da parte solitária da cena!
Torce-se! Torce-se! - Com angústias mortais
Os mimos tornam-se o seu repasto,
E os serafins choram ao verem os dentes do verme
Mastigar coágulos de sangue humano.

Todas as luzes se extinguem - todas, todas!
E sobre cada forma tiritante
A cortina, imenso lençol mortuário,
desce com a violência de uma tempestade,
E os anjos, muito pálidos e macilentos,
Erguendo-se e tirando os véus, afirmam
que este drama é uma tragédia que se chama Homem,
e cujo herói é o verme conquistador."

Mal o narrador acabou de recitar o poema, Ligeia morreu.
Passando uns tempos, o narrador voltou a casar com outra mulher, Lady Rowena Trevanion de Tremaine, loira de olhos azuis.
Esta, por fim, também acabou por adoecer. Enquanto estava neste estado, alertava muitas vezes o narrador de que via e sentia alguém no quarto. O narrador, que desde que Ligeia morreu se tinha viciado em ópio, não sentia nada, e sempre que sentia, culpava o seu vicio.
Uma noite, Rowenda estava pior, e o narrador deu-lhe um vinho receitado, e enquanto ela bebia, o narrador viu que caíram umas gotas vermelhas no vinho, as quais a sua mulher obviamente não tinha visto, porque bebeu-o todo. O narrador, com medo de alterar ainda a alterar mais, não disse nada, apesar de constatar que depois destas gotas a sua mulher piorou, por isso morreu na terceira. Os criados preparavam-na para o seu túmulo, e deixaram-na no sudário, com o narrador a acompanhá-la. Até que ouviu um soluço vindo da sua mulher morta. Foi vê-la e reparou que a cara estava a ganhar uma cor muito leve. Mas logo a seguir voltou à brancura da morte. Passado uma hora, ouviu um suspiro. Correu para ela, e viu que ia ganhando vida, mas de repente, também voltou ao seu estado cadavérico. O narrador tinha perdido toda a esperança, apesar de cada vez mais o corpo se mexer e suspirar. E o corpo sentou-se, e o narrador viu cabelos negros, muito negros, e o cadáver, que mantinha os olhos fechados, abriu-os, mostrando o esplendor dos olhos de Ligeia.



Morella

O narrador casou-se com Morella, uma mulher muito culta que passava os seus dias na cama a ler e a ensinar o seu marido. Até que ela morre a dar à luz uma menina, dizendo que ela será igual a si. Esta menina é exactamente igual à mãe, na inteligência e fisicamente. O narrador não lhe queria dar o nome da mãe, porque esta o tinha “amaldiçoado” a odiá-la, por isso apenas lhe chamava “minha filha”. Mas quando a baptizou, contra o seu senso, disse ao padre o nome da menina: Morella.
No entanto, esta acabou por morrer, e quando ia sepultar e filha no jazigo da mãe, viu que não havia vestígios desta.

Eleonora

O narrador vivia com a sua prima, Eleonora e com a sua tia, no vale da Relva-Matizada. Depois de terem vivido juntos por quinze anos, apaixonam-se, e o vale enche-se de cor pelo seu amor.
No entanto, Eleonora adoece. Mas não tem medo da morte; tem é medo que o narrador se esqueça dela e que a deixe de amar. Ele promete que não o fára.
Depois da morte da amada, o vale perde a sua cor, e o narrador muda para outra cidade, onde conhece uma mulher linda, Ermengarde e casa com ela. Eleonora visita-o, uma noite, e dá-lhe a bênção de poder ser feliz com o seu novo amor.



A Queda da Casa de Usher

O narrador foi convidado por Roderick Usher para passar uns dias na sua casa, pois este estava deprimido porque a sua irmã estava muito doente. O narrador foi, e os dois passavam os dias a desenhar, ler e escrever. Até que a irmã morre e Usher decide sepulta-la num dos jazigos que estavam por baixo da sua casa.
Eles fizeram-no, e a partir desse momento, Uhser fica demente.
Uma noite, o narrador levantou-se da cama porque estava muito incomodado com a enorme tempestade que estava a decorrer. Usher apareceu no seu quarto, e o narrador decidiu entretê-lo, lendo um livro. Enquanto lia o livro, ia-se ouvindo barulhos coincidentes com a narrativa do livro. O narrador, assustado, olhou para Usher, que estava sentado com as mãos na cara, e perguntou o que se passava. Este responde que os barulhos que tinham ouvido eram a sua irmã a sair do seu túmulo, porque a tinham sepultado viva, e que naquele preciso momento, ela estava por detrás da porta do quarto. Mal acaba de pronunciar isto, a porta abre-se e aparece a figura da irmã, que cai sobre Usher. O narrador, aterrorizado, sai da casa a correr, e quando olha para trás, vê-la a ser engolida pelo lago que estava ao lado da casa.



William Wilson

O narrador conta uma história que começa na sua infância, quando conhece outro rapaz exactamente igual a si, e os dois competem em tudo. Eram iguais, com apenas uma pequena diferença: o “imitador” do narrador apenas podia falar com um sussurro, mas imitava o timbre do primeiro. Uma noite entrou no quarto do imitador, e com horror, viu que a sua cara era exactamente igual à sua.
William acaba por mudar de escola, e torna-se uma pessoa “corrupta”, tentado envolver-se com uma mulher casada ou enganar um nobre rico, mas parvo, no jogo. Em cada acção imoral que faz, o duplo aparece e denuncia-o.
Farto, num baile em Roma, o seu duplo aparece e William desafia-o e mata-o. Depois de William fazer isso, um grande espelho, surge do nada. Reflectido nele viu a sua própria imagem, mas coberto de sangue. Sem saber, tinha-se morto a si mesmo. 



O Gato Preto 

O narrador começa a história dizendo que sempre gostou de animais. Ele e a sua esposa, também amante de animais, tinham muitos, incluindo um gato preto chamado Plutão, que o narrador gosta muito. A amizade entre os dois dura anos, até que o narrador torna-se alcoólico. Uma noite, bêbedo, chegou a casa e não viu o gato, e pensa que este está a evitá-lo. Então procura-o, encontra-o, e agarra-o com muita força. O gato, assustado, morde-o, e ele saca de um canivete e tira um olho ao gato, de propósito.
A partir daí, o gato foge do dono, com medo, e o narrador sente remorsos pelo que fez. Mas depois começa a sentir-se irritado com o gato, e pega no gato e enforca-o.
No dia seguinte, o narrador retorna às ruínas de sua casa para encontrar, impressa na única parede que sobreviveu ao incêndio, a figura de um gato gigantesco, com uma corda à volta do pescoço.
O narrador, ao ver a parece, fica aterrorizado, mas arranja uma explicação. Passado algum tempo, encontra um gato semelhante. Era do mesmo tamanho que Plutão e era preto, mas tinha uma mancha branca no peito, e decide leva-lo para casa. Um dia, o gato aparece sem um olho, do mesmo lado que Plutão, e a sua manchinha no peito começa a transformar-se numa forca definida.
Então, um dia, quando o narrador e sua esposa estavam a ver a cave da sua nova casa, o gato meteu-se no meio das pernas do narrador, e este ia caindo. Farto, tenta matar o gato com o machado, mas a sua mulher mete-se no meio e apanha com o golpe.
Começou por esconder o corpo, e tirou os tijolos de uma saliência na parede, e põe, com cuidado, o corpo ali. Voltou a pôr os tijolos, e viu que tinha escondido tudo perfeitamente.
Nos dias seguintes, começou uma investigação, e para alegria do narrador, o gato tinha desaparecido.
No último dia da investigação, o narrador acompanha a polícia para o cave. Eles ainda não tinham encontrado nada, e o narrador, completamente confiante na sua própria segurança, comenta a robustez do edifício e bate com a bengala exactamente no sítio onde tinha emparedado a mulher, e ouviu-se um som. A polícia tratou logo de derrubar a parede, e viram o cadáver da esposa, com o gato em cima da cabeça. Tinha emparedado a mulher juntamente com o gato.



O Poço e o Pêndulo

A história passa-se durante a Inquisição Espanhola. O narrador é levado ao tribunal e é condenado à morte.
Acordou num sítio escuro, e pensa que está trancado num túmulo, mas descobre que está numa cela, e decide explorá-la. Como não via nada, para saber onde começava e acabava, pôs uma tira do seu manto contra uma parede, mas antes de conseguir contar os paços que tinha a sua cela, desmaiou.
Quando acorda sente comida e água à sua beira. Decidido, levanta-se e tenta medir a prisão, e descobre que mede cem passos. Enquanto atravessava a sala, tropeça em alguma coisa. E descobre que é um poço.
Voltou a desmaiar, e quando acordou, vê que está tudo um pouco iluminado, e ele está preso numa placa de madeira com cordas. Olhando para cima viu um retrato do Pai Tempo pintado no tecto, e nesta figura está pendurado um pêndulo, que balançava lentamente de trás para a frente, da esquerda para a direita.
O narrador, tentando fugir à morte de ser cortado ao meio, pegou num bocado da sua comida e esfregou-a nas cordas que o prendiam, para atrair ratos e para estes roerem as cordas. Até que finalmente se liberta, mas por pouco.
E então, depois de se soltar, as paredes começaram a ficar vermelha vivo e quentes, e começaram a mexer-se para dentro, guiando-o para o poço. Mas as paredes começam a recuar, e ouve vozes, e sente que um braço que o puxa. O exército francês tinha tomado Toledo.


O Coração Revelador

O narrador, que era muito nervoso e ouvia extraordinariamente bem, vivia na mesma casa que um velho, que tinha um olho azul com cataratas. Este olho atormenta o narrador, e este decide matar o velho, apesar de este nunca lhe ter feito mal nenhum.
Foi ao quarto do velho, durante sete noites, para observar o observar, à espera que ele abrisse aquele olho.
Na oitava noite, o velho acordou e sentou-se na cama, enquanto o narrador fazia o mesmo ritual que tinha começado uma semana atrás. O narrador esperou um bocado, mas depois decidiu abrir a sua lanterna um bocadinho, e viu o olho do velho. Ouviu o coração do velho bater demasiado rápido, e este soltou um grito. O narrador atira a cama sobre ele, e sufoca-o. Para esconder o corpo, desmembrou-o e meteu-o entre os soalhos do quarto.
No entanto, o grito assustou alguns vizinhos, e a polícia foi à sua casa ver o que se tinha passado. O narrador convida os três oficiais a examinar a casa, afirmando que os gritos tinham sido seus, devido a um pesadelo. E o velho? Este estava fora do país. Confiante de ter cometido o crime perfeito, o narrador traz cadeiras para os policias e sentam-se todo na sala do velho, no mesmo local onde o corpo está escondido, mas como eles não suspeitavam de nada, o narrador age normalmente.

O narrador, no entanto, começa a ouvir um barulho fraco. O ruído vai crescendo. É o coração do velho! O som vai aumentando, e aumentando, e os oficiais não ouvem nada. Então farto do barulho, não aguentando mais, grita a verdade: tinha morto o velho! Bastava retirar aqueles soalhos. E tudo por causa do bater horrível daquele coração.



O Retrato Oval

O conto começa com o narrador ferido, procurando desesperadamente por refúgio. Encontra uma mansão nos Apeninos, e decide ficar ali um bocado. Então, começa a admirar as obras de arte que estão no quarto onde decidiu ficar. Encontra, sem querer, um quadro muito realista, e fica a contemplá-lo, mas cansou-se de olhar e procura uma explicação no livro.
A narrativa muda, e conta a história do quadro: foi pintado por um artista excêntrico, sendo o retrato da sua jovem esposa. Mas no entanto, o quadro estava a ficar tão realista que ficou obcecado, e deixou de olhar para a sua mulher. Quando finalmente acaba o quadro, exclama: "É na verdade, a própria Vida!". Olhou para a sua mulher: estava morta.



O Barril de Amontillado

Montresor foi insultado por Fortunato, e decidiu vingar-se. Como este se gabava de ser um grande conhecedor de vinhos, o narrador disse que tinha comprado um barril de Amontillado, e queria que Fortunato visse se era Amontillado ou não. Levou-o às caves de vinho do seu palácio, e condu-lo a um nicho. Empurra-o lá para dentro, e começa a emparedar o nicho, deixando a morrer lá Fortunato.
Já se tinham passado cinquenta anos e nunca ninguém soubera.


Pronto. Não sei se repararam, mas tentei contar os contos o mais resumidamente possivel, para quem não ler, ter um incentivo. Aconselho, pois só os finais valem a pena.


*A minha edição é da Guimarães, de 2009.

Edgar Allan Poe na internet

14/06/2011


Se há alguma coisa útil que a internet tenha, e se isso existe mesmo, essa coisa útil passa por divulgação de conteúdos. Claro, há conteúdo que não deveria sequer parar à internet, mas tomemos atenção apenas às coisas boas.

Para não me alongar muito mais, o post de hoje é dedicado a Edgar Allan Poe. Não sobre os seus poemas, nem sobre as suas histórias, muito menos sobre a sua vida, mas sobre o que dele existe pela internet. Por incrível que pareça, a internet está recheada de coisas extraordinárias sobre o escritor.

Tudo o que precisa de saber sobre Edgar Allan Poe

Poe Stories – de entre os inúmeros sites que tive oportunidade de ler sobre a obra de Poe, este é, definitivamente, o melhor (é só a minha opinião, mas como eu tenho o dom da razão…). E o que é que faz deste site o melhor? Para além de ter as histórias todas do escritor, tem resumos dessas mesmas histórias – há sempre quem não deseja ler a história toda... E nas histórias, tem uma lista de palavras (wordlist) que contextualiza determinado termo. Nem é preciso andar à procura da palavra na lista, que na história elas estão com as devidas hiperligações.

Para além disto, o site tem a tão relevante biografia de Poe, citações (e a história de onde elas foram retiradas), uma linha cronológica (sabem?, aquilo com datas e factos) e uma galeria de imagens organizadas por categoria. Já agora, vale a pena dar uma vista de olhos à sepultura do escritor.

O site é em inglês, é pena, mas todos já sabemos de antemão que em português não encontraremos muitas coisas deste género – é como procurar uma agulha num palheiro, podemos encontrá-la depois de um esforço incomensurável.

Edgar Allan Poe Society of Baltimore – outro site muito interessante sobre o autor. Este é duma sociedade literária e disponibiliza-nos tudo o que é obra de ou sobre Poe. E quando eu digo tudo, é porque é mesmo tudo. Até tem um cânone sobre a obra do escritor. É um site que vale a pena ser lido, se bem que, lá está, é outro em inglês.

Edgar Allan Poe – finalmente, um site em português dedicado ao autor. Tem de tudo o que é relativo a Poe, até mesmo músicas. Claro está, não podiam faltar links de download para as obras do escritor, adaptações das mesmas para cinema, listas de links como esta, entre outras variadíssimas coisas que fazem com que valha a pena visitar o site.

Allan Poe – outra agulha no palheiro. Mais um site com obras de Poe, disponíveis também em PDF, adaptações da obra dele ao cinema e à música, e até tem cartoons, ilustrações, desenhos e quadros sobre Poe ou as suas histórias. Mais um que vale a pena ser lido.

A vida do escritor

Saída de Emergência – biografia de Poe no site da editora. Vale a pena ser lida porque tem o essencial da vida de Poe (o que precisamos/queremos saber dele), o texto não é grande e é em português (como já devem ter reparado).

LER – biografia presente na revista ler, aquando da comemoração do bicentenário do nascimento do escritor. Uma pequena e bem-humorada biografia.

Classic Reader – mais uma biografia com o que é essencial sabermos. É em inglês, não é muito grande e tem o bónus de conter citações do escritor.

Adaptações da obra

O Corvo, lido pelos Simpsons. Versão portuguesa (com a tradução feita pelo Fernando Pessoa, creio eu)

O Corvo, poema interpretado por Vincent Price. Versão em inglês mas legendada em português. A qualidade do vídeo não é a melhor, mas que importa? Desde que ouçamos a interpretação…

The Raven, narrado por Christopher Walken. Versão em inglês, mas legendada. Vídeo com ilustrações de Gustave Doré.

The Tell Tale Heart. Curta-metragem narrada por Vincent Price e legendada em português.

Não, eu não pus aqui todas as adaptações feitas das obras de Poe. No entanto, se tiverem alguma sugestão, é só entrar em contacto.

Ilustrações

Pelos vistos, a época de Poe era uma época frutífera em ilustrações – se hoje ainda fosse assim… Para mais ilustrações, cartoons ou ainda caricaturas, basta bater à porta do nosso amigo Google. Umas que gostei imenso foram estas:

Ilustrações de Alberto Martini aqui.
Ilustrações de Gustave Doré aqui.
Ilustrações de Harry Clarke aqui e aqui.

Ensaios e artigos

Filosofia da composição – um escrito de Poe sobre escrever. Nunca é mau aprender com um mestre…


*Ficou aqui um pequeno compêndio de sites interessantes sobre Edgar Allan Poe. Para fazerem sugestões, basta entrar em contacto.

Murders In The Rue Morgue

13/05/2011

Desengane-se quem pensa que literatura é uma arte por si só na medida em que não se pode associar a outras formas de expressão artística (para além, obviamente, dos filmes). Qualquer arte pode pegar na literatura e fazer o que quiser com ela, digamos assim. A música é um belo exemplo disso, já que existem músicas que são baseadas em livros.

Decerto que Murders In The Rue Morgue não é um nome estranho aos leitores. A famosíssima narrativa de Edgar Allan Poe conta a história de um brutal assassinato protagonizado por um gorila que estava a imitar o seu dono a barbear-se (sim, isto foi um spoiler, mas não retira emoção à história). De destaque nesta breve narrativa, para além das extraordinárias deduções de Dupin, é o horror que é característico a Poe, transmitido pelas suas descrições.

A história inspirou os Iron Maiden a fazerem uma música fantástica, com o mesmo nome. É curioso reparar na música e compará-la com a história, principalmente o seu ritmo rápido que demonstra o medo e hesitação do principal suspeito (o dono do animal) ao mesmo tempo que contrasta com o ambiente sombrio do local do assassinato descrito por Poe. Não há que dar demasiada atenção a este último aspecto, uma vez que a música apenas fala da perspectiva do suspeito, na medida em que a história original o permitiu.

Claro que a música não é uma réplica fiel da história, e não podemos, só por ouvi-la, dizer que já conhecemos a narrativa de trás para a frente (já que não conta a historiazinha toda). Contudo, é um bom incentivo para a descoberta da obra de Poe – e vice-versa.

É caso para dizer que Edgar Allan Poe e Iron Maiden foram as melhores coisas que nos aconteceram. A tão falada música:

*Música presente no álbum Killers, de 1981. Neste mesmo álbum também está presente uma continuação da música, Innocent Exile.

O Corvo, de Edgar Allan Poe (tradução de Fernando Pessoa)

23/03/2011


Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais
«Uma visita», eu me disse, «está batendo a meus umbrais.
       É só isso e nada mais.»


Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P'ra esquecer (em vão) a amada, hoje entre hostes celestiais —
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
       Mas sem nome aqui jamais!


Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundindo força, eu ia repetindo,
«É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
       É só isso e nada mais».


E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
«Senhor», eu disse, «ou senhora, decerto me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi...» E abri largos, franquendo-os, meus umbrais.
       Noite, noite e nada mais.


A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais —
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.
       Isto só e nada mais.


Para dentro estão volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
«Por certo», disse eu, «aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais.»
Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.
       «É o vento, e nada mais.»


Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou sobre meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais.
Foi, pousou, e nada mais.


E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
«Tens o aspecto tosquiado», disse eu, «mas de nobre e ousado,
Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais.»
       Disse-me o corvo, «Nunca mais».


Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos seus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,
       Com o nome «Nunca mais».


Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
Perdido, murmurei lento, «Amigo, sonhos — mortais
Todos — todos lá se foram. Amanhã também te vais».
       Disse o corvo, «Nunca mais».


A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
«Por certo», disse eu, «são estas vozes usuais.
Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,
E o bordão de desesp'rança de seu canto cheio de ais
       Era este «Nunca mais».


Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
Que qu'ria esta ave agoureira dos maus tempos ancestrais,
Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,
       Com aquele «Nunca mais».


Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
No veludo onde a luz punha vagas sombras desiguais,
Naquele veludo onde ela, entre as sombras desiguais,
      Reclinar-se-á nunca mais!


Fez-me então o ar mais denso, como cheio dum incenso
Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
«Maldito!», a mim disse, «deu-te Deus, por anjos concedeu-te
O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!»
       Disse o corvo, «Nunca mais».


«Profeta», disse eu, «profeta — ou demónio ou ave preta!
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais,
Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!»
       Disse o corvo, «Nunca mais».


«Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!, eu disse. «Parte!
Torna à noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!»
       Disse o corvo, «Nunca mais».


E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha dor de um demónio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão mais e mais,
E a minh'alma dessa sombra, que no chão há mais e mais,
       Libertar-se-á... nunca mais!


*Poema encontrado neste site, onde pode ser lida também a versão original do mesmo.
*Quadro de Thomas Hooper, encontrado aqui.

The Tell Tale Heart, de Edgar Allan Poe

10/10/2010


O Coração Delator, de Edgar Allan Poe, é talvez a sua história mais famosa e mais apreciada. Não irei escrever muito sobre a história, até porque uma adaptação da mesma está presente no vídeo acima e porque a história é indescritível. Apenas direi que é fantástica a maneira como Poe escreve e desenvolve a história e, ainda mais excepcional, o seu conceito: o insano que crê que está mentalmente são, a sua justificação para o que faz e que lhe parece razoável, e a consciência a falar - demonstrada pelo batimento do coração ("Oh, it is the beating of his hedious heart!").

Edgar Allan Poe prova-nos que o verdadeiro terror está na nossa mente, ainda mais que nas nossas acções; o terror encontra-se nas nossas alucinações, nos nossos medos, nos nossos anseios, nos nossos arrependimentos. E é esse terror que muitas vezes nos condena e nos torna insanos.

Uma leitura bastante boa do conto pode ser ouvida aqui (em inglês).
O conto pode ser lido aqui (em português).

Contos Policiais, de Edgar Allan Poe

08/08/2010

Edgar Allan Poe (1809 – 1849) é um dos maiores autores americanos, mestre dos contos de horror e pioneiro no que diz respeito às histórias policiais. Curiosamente, ganhou primeiro o apreço dos críticos em França e em Inglaterra. Podem ler mais sobre este escritor aqui (em inglês).
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Este livro, Contos Policiais, foi editado pela Guimarães Editores, em 2009, numa comemoração dos 200 anos do nascimento do escritor. A par deste livro, foram também editadas algumas versões especiais (com capa dura, ilustrações, etc.).
Apesar de o livro ser composto por contos policiais, Edgar Allan Poe não deixa de fazer alguns ensaios sobre, por exemplo, as capacidades analíticas do ser humano (Os Crimes da Rua Morgue) ou ainda sobre algumas coincidências difíceis de imaginar (O Mistério de Marie Rogêt) – aliás, característica predominante na obra do autor, isto dos breves ensaios. A capacidade de descrição de Edgar Allan Poe é extraordinária: conseguimos imaginar todos os pormenores do crime, o processo de resolução do mesmo e o carácter do criminoso.
Embora estas curtas histórias presentes neste livro não sejam as típicas histórias de horror de Poe, conseguimos captar o espírito perturbado do escritor ao lermos a natureza dos crimes que foram cometidos. Ainda que estes contos sejam ligeiramente diferentes da outra faceta de Edgar Allan Poe, a linguagem e a maneira de escrever do autor mantém-se; querendo isto dizer que conseguimos identificar o autor deste livro pela linguagem/escrita (isto claro, se conhecermos de antemão outras obras do autor).
No que diz respeito ao mistério que é característico ao romance policial, é bem conseguido ao apenas sabermos quem fez o quê no final da história (o que é algo inesperado, mas se nos atentarmos às pistas e aos pormenores durante a leitura conseguimos perceber quem fez o quê). Quanto ao Dupin, é um génio que consegue resolver os crimes devido à sua filosofia de se atentar aos mais ínfimos pormenores e de dar aos factos simples igual importância que dá aos factos complicados, pois muitas das vezes a resolução dos problemas está nos mais pequenos pormenores.
O livro conta, também, com um excelente trabalho de tradução, que contém notas de rodapé bastante elucidativas, quer a explicar quer a contextualizar a história.
Edgar Allan Poe acreditava que existem crimes perfeitos. Como já referi antes aqui, os crimes perfeitos podem até existir, mas não só depende de quem os comete, mas também de quem os resolve.

Abaixo seguem-se os links das histórias que compõem este livro:
*Não optei por resumir os contos, pois assim perderia a graça se os leitores se decidissem a ler o livro. Edgar Allan Poe na imagem.
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