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Contos Românticos (vários autores)

22/09/2013

*Este livro faz parte da colecção Biblioteca de Verão (2011), do DN/JN.
*O texto tem spoilers.

Ilustração de Cristina Valadas, presente na capa do livro. Imagem original encontrada aqui.

O Rouxinol e a Rosa, de Oscar Wilde

«Ah! de que insignificâncias depende a felicidade! Li tudo o que escreveram os sábios, conheço todos os segredos da filosofia. No entanto, a falta de uma rosa vermelha torna a minha vida intolerável.»

Um estudante precisa de uma rosa vermelha para dançar com uma rapariga, quando no seu jardim não as há. Um rouxinol, que ouviu os seus lamentos, decidiu procurar essa rosa, mas só a conseguirá se sacrificar a sua vida (a rosa branca tornar-se-á vermelha com o seu sangue).

De facto, o estudante consegue a rosa vermelha, mas a rapariga recusa-se a dançar com ele para dançar com o sobrinho do camareiro, rapaz muito mais rico. O sacrifício do rouxinol foi em vão e o estudante passou a ser prático, dedicando-se à filosofia e à metafísica.

Correndo o risco de esta análise ser bastante simplista, o intuito da história não é mais do que mostrar que grandes sacrifícios pelo amor podem revelar-se inúteis; para além de, obviamente, mostrar até que ponto o ser humano pode ser fútil (preferindo o dinheiro ao amor) e ingénuo (acreditando que o amor se compra).

De Viagem, de Guy de Maupassant

«Eu sentia-a feliz, ela tão abandonada e que se sabia perdida, feliz por ser amada assim, com esse respeito e essa constância, com essa poesia exagerada, com essa dedicação pronta a tudo.»

Uma história de amor que talvez seja classificado como louco. Uma condessa (doente e praticamente abandonada pelo marido) viaja de comboio quando decide contar o dinheiro que trazia consigo. Entretanto, entra na sua carruagem um homem que lhe garante não ser nenhum malfeitor, apenas quer urgentemente passar a fronteira.

A senhora aceita ajudá-lo e fá-lo passar-se por seu criado, com a condição de o homem não lhe dirigir a palavra. De facto, o homem cumpriu a sua promessa, a não ser quando agradeceu à condessa.

O estado de saúde da condessa piorava, contudo era feliz, sentindo-se amada pelo homem que ajudou, que todos os dias a observava de fora, que nunca lhe dirigia a palavra. Quando a senhora morreu, ele beijou-lhe a mão ternamente.

Este poderia ser considerado um amor tresloucado, mas é, realmente, um amor dedicado, um amor poético, até mesmo um amor impossível – fazendo, independentemente da classificação, o casal feliz.

Histórias do Bom Deus, de Rainer Maria Rilke

27/07/2011


Pelo título do livro, podemos chegar à conclusão que é deveras moralista, que nos impinge religião, que nos tenta convencer que o que acreditamos é estúpido e, assim, tenta converter-nos ao cristianismo. Desenganem-se.

Pois, isto tudo é falso. Este livro é exactamente o contrário: apenas demonstra a busca de Deus por parte das personagens e nada mais. Não nos empurra religião pelas goelas abaixo, pelo que é um livro que respeita o leitor.

Adiante. Este livro é um conjunto de treze histórias que têm em comum a procura individual de Deus. Apesar de o livro estar dividido, as histórias são para serem lidas de seguida, porque têm um fio condutor: o narrador das mesmas. Por outras palavras, é o narrador a contar a história de como contou as suas histórias.

Outro fio condutor do livro são as crianças. O narrador preocupa-se em que as crianças tomem conhecimento das suas histórias, porém tem medo de as contar às próprias crianças já que acredita que elas não entenderiam as suas palavras.

Como os leitores já concluíram, e desta vez com razão, o livro está escrito duma maneira simples e coloquial, sendo bastante agradável a sua leitura. Todavia, não pensem que Rilke deixou de guardar espaço para reflectir (duma maneira filosófica) sobre diversos assuntos, entre os quais a morte e a infância.

Por causa dessa densa escuridão que fica para trás de nós e com a qual mantemos relações tão frágeis e inseguras. Que tempo esse! Depositámos nele as nossas primeiras emoções, o princípio todo, toda a confiança, o germe de tudo aquilo que um dia talvez devesse vir existir. E de repente compreendemos: isso tudo afundou-se no mar e nem sequer sabemos ao certo quando. Não demos por isso.

Em suma: um livro com tema bastante conhecido e falado, mas escrito duma maneira que o torna único; o que prova que a maneira como se escreve é muitíssimo importante num livro.

*Imagem: quadro do pintor Albert Samuel Anker, cujo pormenor encontra-se na capa do livro. Quadro encontrado aqui.

Cartas a Um Jovem Poeta, de Rainer Maria Rilke

08/01/2011


Rainer Maria Rilke, nascido em 1875, foi um escritor alemão, considerado um dos maiores poetas do século XX. A sua obra é marcada por um forte pendor existencialista. Cartas a Um Jovem Poeta, como o nome indica, é um conjunto de cartas escritas pelo autor a um aspirante a poeta, Franz Xaver Kappus, que não sabia se deveria seguir uma carreira literária.

Neste conjunto de cartas podemos encontrar considerações de Rilke sobre a solidão, a escrita (poesia), a Natureza, Deus, o amor e a tristeza. Este livro torna-se fantástico pela profundeza dos temas abordados, mantendo, contudo, uma prosa simples e directa.

Em verdade, não há muito que dizer sobre o livro, pois é preciso lê-lo para o compreender. Apenas posso dizer que ler este livro é como se estivéssemos a ouvir conselhos dum sábio amigo, é como se fosse um consolo (como se as cartas de Rilke fossem escritas para nós). É, até, duma certa maneira impossível não nos identificarmos com alguns aspectos deste livro.

(…) Ninguém o pode aconselhar, ninguém o pode ajudar, ninguém. Há uma única via. Entre dentro de si. Investigue a razão que o leva a escrever, veja se ela lançou raízes no lugar mais recôndito do seu coração, pergunte se morreria caso fosse impedido de escrever. Acima de tudo, na hora mais silenciosa da noite, pergunte a si próprio: tenho de escrever? Escave dentro de si até encontrar uma resposta profunda. E se essa resposta for afirmativa, se puder enfrentar esta séria pergunta com um «tenho» simples e forte, então construa a sua vida de acordo com esta necessidade. (…) Evite por ora as formas mais comuns e correntes: são elas as mais difíceis, pois só uma grande força, já amadurecida, conseguirá criar uma coisa própria por entre a abundância de boas e por vezes brilhantes prestações. Evite por isso os motivos gerais e prefira aqueles que o seu quotidiano lhe oferece; descreva as suas tristezas e desejos, os pensamentos passageiros e a fé numa qualquer beleza. Se o seu dia-a-dia lhe parecer pobre, não o acuse de pobreza; acuse-se a si próprio, reconheça que não é ainda poeta o bastante para conseguir invocar as suas riquezas; pois para um criador não há pobreza e nenhum lugar é indiferente e pobre. (…) Queria apenas aconselhá-lo, por fim, a velar em silêncio e com seriedade pelo seu crescimento; não há perturbação mais violenta do que olhar para fora e esperar respostas exteriores a perguntas a que talvez só a sua sensibilidade mais íntima, nas horas de maior silêncio, poderá responder. (…)
Primeira carta

(…) Pois no fundo, e sobretudo mas coisas mais profundas e importantes, estamos indizivelmente sós, e para que um homem possa aconselhar ou sequer ajudar um outro, muitas coisas têm de acontecer e ser levadas a bom porto, uma constelação inteira terá de favorecer esta intenção.

[Sobre os livros]: Diante de si abrir-se-á um mundo, a felicidade, a riqueza, a incompreensível grandeza de um mundo. Viva dentro destes livros por algum tempo, aprenda com eles o que lhe parecer digno de ser aprendido, mas acima de tudo ame-os. Este amor será mil vezes retribuído e, o que quer que a vida lhe reserve, estou certo de que este amor fará parte do tecido do seu ser como um dos fios mais importantes por entre os muitos fios das suas experiências, desilusões e alegrias. (…)
Segunda carta

(…) Nenhuma experiência é demasiado insignificante, e mesmo o acontecimento mais miúdo cresce como um destino. (…)
[Sobre a crítica]: Confie sempre em si próprio e na sua sensibilidade; se estiver enganado, o crescimento natural da sua vida interior conduzi-lo-á lentamente e com o passar do tempo a novos conhecimentos. Deixe que os seus juízos sigam a sua própria evolução silenciosa e imperturbável que, como todos os progressos, obedece a uma profunda necessidade interior, não podendo ser imposta nem apressada. (…)
Terceira carta

(…) essas perguntas e emoções, que vivem uma vida própria na sua profundeza, não podem ser respondidas por ninguém; pois mesmo os melhores falham nas palavras quando querem designar o que é quase inaudível e quase indizível (…) Se procurar amparo na Natureza, tudo será para si mais fácil, mais coeso e de algum modo mais conciliador, talvez não no intelecto, que recua atónito, mas no mais íntimo da sua consciência, do seu conhecimento e atenção. (…) Não procure agora respostas que não lhe podem ser dadas porque ainda não as pode viver. E tudo tem de ser vivido. Viva agora as perguntas. Aos poucos, sem o notar, talvez dê por si um dia, num futuro distante, a viver dentro da resposta. (…)
Mas tudo o que um dia talvez venha a ser possível para muitos pode ser já preparado pelo solitário e construído com as suas próprias mãos, que erram menos. Por isso, caro Senhor, deverá amar a sua solidão e carregar o sofrimento que a acompanha com lamentos melodiosos. Pois aqueles que lhe são próximos estão distantes, como me diz, e isso mostra que a sua solidão começa a estender-se. E se o próximo parece distante é porque a sua solidão toca já nas estrelas e é desmedida. Alegre-se com o seu crescimento, que não poderá ser assistido por ninguém, e seja benevolente para com aqueles que ficam para trás, e mostre-se firme e tranquilo diante deles e não os atormente com as suas dúvidas e não os assuste com a sua esperança ou a sua alegria, que eles não podem compreender. (…)
Quarta carta

(…) Mas se notar que ela é grande, alegre-se, pois o que seria uma solidão (faça esta pergunta a si mesmo) sem grandeza? Há apenas uma solidão, que é grande e difícil de suportar, e quase todos conhecem a hora em que gostariam de a trocar por uma qualquer convivência, por mais vulgar e fácil, por uma aparência de harmonia mínima com o mais inferior, com o mais indigno… Mas é talvez nestas horas que a solidão cresce. Mas não se deixe perder. Só a solidão é necessária, uma grande solidão interior. Entrar dentro de si e não estar com ninguém horas a fio – tem de ser capaz disso. (…)
Sexta carta

(…) E não desespere da sua solidão por sentir em si um desejo de sair para fora dela. Precisamente esse desejo, se o usar com serenidade e distanciamento, como uma ferramenta, ajudará a estender a sua solidão sobre um território cada vez mais vasto. (…) É bom ser solitário, porque a solidão é difícil; que uma coisa seja difícil deverá ser mais uma razão para a fazer. (…)
Sétima carta

*Na imagem: o autor
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