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A aldeia de Stepantchikovo e os seus habitantes, de Dostoiévski

23/02/2014

*O texto tem spoilers.

Caricatura do autor. Imagem daqui

«E pus-me a falar com ardor de que, na mais desgraçada criatura, poderiam ainda conservar-se sentimentos humanos; de que as profundezas da alma humana eram insondáveis; de que não se podia desprezar os caídos mas, pelo contrário, era preciso ressuscitá-los; de que as medidas universalmente reconhecidas do bem e do mal não eram correctas, etc., etc.»

Primeiro. O livro tem no título uma palavra árdua de pronunciar: demorei semanas para dizer Stepantchikovo sem gaguejar, e agora presumo que levarei outras tantas semanas a escrever correctamente a palavra sem ter de consultar o livro. Mas a questão aqui não é a dificuldade que o título da obra poderá trazer. A questão é que este título pode assustar alguns leitores preocupados com o nível de experiência literária que é preciso para levar este livro adiante, sendo o raciocínio o seguinte: se o título é difícil, o livro também o será.

Segundo. O raciocínio tem tanto de lógico como de absurdo, pois não faltará quem escolha os livros pelo título ou, pelo contrário, quem ignore esse método de escolha. O facto é que ler Dostoiévski é fácil, devido ao seu estilo coloquial – o que poderá ser mais hercúleo é compreender realmente o que lá está escrito, pois o existencialismo e o realismo presentes nas obras do autor colocam questões pertinentes sobre o ser humano e as suas acções.

Terceiro. O livro foi publicado pela primeira vez em 1859 – antes das obras mais conhecidas de Dostoiévski – e não é o mais típico dos romances do autor. O livro é bem-humorado, irónico e não acontecem grandes desgraças às personagens. A história gira à volta de Fomá Opísskin, uma pessoa mesquinha outrora humilhada, que agora achincalha não só o seu benfeitor (um homem bastante tolerante), como também todos à sua volta.

Quarto. A análise do carácter humano, presente em qualquer obra de Dostoiévski, é sempre acutilante e correcta. A questão deste romance é que uma pessoa é medíocre porque já teve a sua quota-parte de desgraças, isto é, a sua mediocridade não passa de uma tentativa de evitar mais humilhação. Acontece que Fomá acaba por ser perdoado pelo seu egoísmo, pelas suas vexações, pela sua rudeza, porque fez uma boa acção que, apesar de ter sido feita apenas para seu benefício, não deixou de ser um gesto bonito. Esse gesto bonito de Fomá não foi mais do que “autorizar” o seu benfeitor a casar-se, quando antes se opunha terminantemente a tal coisa, uma vez que a rapariga não era rica. Assim sendo, a causa da desgraça passa agora a causa da felicidade – e daí o perdão.

Quinto. Se há uma lição a retirar deste livro, que seja a de que, sendo a profundeza da mente humana inescrutável, havendo boas pessoas que poderão ser malfeitoras, e más pessoas capazes de ter bons sentimentos, não cabe a nós julgar o que quer que seja. Quanto ao merecimento do perdão, esse assunto é bastante relativo, pelo que a lição retirada do livro depende da nossa interpretação do mesmo e da nossa vivência. Errar é humano e perdoar é divino, mas nem sempre é esse o caso…


Mais sobre o livro:
A Aldeia de Dostoiévski, no Pierrot Lunaire.

A expectativa de uma revolução (excerto de Os Demónios, de Dostoiévski)

27/10/2013

O excerto de hoje é um diálogo entre Karmazínov, escritor algo influente, e Verkhovenski, um dos líderes do grupo revolucionário. O excerto é retirado da edição da Relógio D'Água, de 2010, com tradução de António Pescada. Mais sobre a obra aqui.

Imagem encontrada aqui.

- O senhor, ao que parece, veio para cá porque lá se esperava uma epidemia depois da guerra?
- N-não, não foi nada por isso. – continuou o senhor Karmazínov, destacando indulgentemente as suas frases e, a cada viragem de um canto para o outro, agitava levemente a perna direita, só um pouco – De facto, – riu-se com algum fel – tenciono viver o mais possível. Há na nobreza russa qualquer coisa que se desgasta com extrema rapidez, em todos os sentidos. Mas eu quero ficar decrépito o mais tarde possível e agora vou-me mudar para o estrangeiro definitivamente; lá o clima é melhor, as construções são de pedra e tudo é mais sólido. A Europa durará até ao fim dos meus dias, acho eu. Que lhe parece?
- Eu sei lá.
- Hum. Se de facto a Babilónia europeia ruir e a queda for grande (no que estou completamente de acordo consigo, embora pense que até ao fim dos meus dias chegará), a verdade é que na nossa Rússia não há nada para ruir, comparativamente falando. No nosso país não cairão pedras, mas ficará tudo desfeito em lama. A santa Rússia é a coisa menos preparada no mundo para resistir seja ao que for. O povo simples ainda resiste mais ou menos, graças ao Deus russo; mas o Deus russo, segundo os últimos dados, é muito pouco seguro e mal resistiu à reforma camponesa ou, pelo menos, foi fortemente abalado. E depois vêm os caminhos-de-ferro, depois vêm vocês… já não tenho fé no Deu russo.
- E no europeu?
- Não acredito em nenhum. Fui caluniado perante a juventude russa. Sempre simpatizei com todos os movimentos dela. Mostraram-me esses panfletos locais. As pessoas olham-nos com perplexidade, porque toda a gente se assusta com a forma, mas todos acreditam no seu poder, ainda que não o reconheçam. Toda a gente está em queda há muito tempo e toda a gente sabe que não tem onde se agarrar. Estou convencido do êxito dessa propaganda secreta devido ao facto de que a Rússia é agora por excelência o lugar do mundo onde tudo pode acontecer sem a mínima oposição. Compreendo até bem de mais por que motivo os russos abastados fogem todos para o estrangeiro, e cada vez mais de ano para ano. Fazem-no simplesmente por instinto. Se o navio vai afundar-se, os ratos são os primeiros a abandoná-lo. A santa Rússia é um país de madeira, pobre e… perigoso, um país de pobres vaidosos nas camadas superiores e, na sua maioria, vivem em cabanas miseráveis. Ela ficará feliz com uma saída qualquer, basta explicar-lhe qual. Só o governo ainda quer resistir, as agita o cacete às escuras e atinge os seus partidários. Tudo aqui está perdido e condenado. A Rússia, tal como está, não tem futuro. Eu tornei-me alemão e considero isso uma honra.
- Não, o senhor começou por falar dos panfletos; diga tudo, o que acha deles?
- Toda a gente tem medo deles, portanto são poderosos. Denunciam abertamente as mentiras e provam que não há onde possamos agarrar-nos nem em que apoiar-nos. Falam alto, quando toda a gente está calada. O que há neles de mais eficaz (apesar da forma), é a ousadia até agora inédita de encarar a verdade de frente. Essa capacidade de olhar a verdade cara a cara é própria apenas da actual geração russa. Não, na Europa não são ainda tão ousados: ali é o reino da pedra, ainda há em que apoiar-se. Por aquilo que vejo e posso julgar, toda a essência da ideia revolucionária russa consiste na negação da honra. Agrada-me que isso seja expresso com tanto denodo. Na Europa ainda não compreenderam isso, mas entre nós é precisamente a isso que se vão lançar. Para o homem russo, a honra só por si é apenas um fardo inútil. E sempre foi um fardo, ao longo de toda a sua história. Será mais fácil atraí-lo ao proclamar abertamente o «direito à desonra». Eu pertenço à velha geração e, confesso, ainda defendo a honra, mas apenas por hábito. Gosto simplesmente das velhas formas, admitamos que por falta de coragem; é preciso viver o resto da vida de algum modo.

As teorias políticas como «passatempo estético» (excerto de Os Demónios, de Dostoiévski)

20/10/2013

Ilustração de Fritz Eichenberg, encontrada aqui.
Pois bem: o excerto de hoje da obra de Dostoiévski explica a teoria de Chigaliov para uma civilização instruída e justa e, na impossibilidade de a concretizar (até porque os restantes participantes da reunião consideram-na descabida), Liámchin apresenta a sua contra-teoria.

É interessante notar a opinião de Verkhovenski de que as teorias políticas não passam de um passatempo estético. A bem dizer, a maioria das teorias políticas, mesmo nos dias de hoje, não passam do papel - por serem difíceis de concretizar na realidade, por não serem boas, por não servirem ao interesse de toda a população, por inúmeras outras razões. De qualquer maneira, pôr em prática uma revolução é bastante difícil, bem como mudar o mundo só pela teoria.

Assim sendo, como se explica uma revolução? Que não foi bem pensada na teoria ou que, pelo contrário, foi a única solução viável depois de muito reflectir? 

O excerto é retirado da edição da Relógio D'Água, de 2010, com tradução de António Pescada. Mais sobre a obra aqui.




- Peço a palavra – disse Chigaliov, sombrio mas com voz firme.
- Tem a palavra – permitiu Virguinski.
O orador sentou-se, ficou calado durante meio minuto e depois proferiu em voz solene:
- Meus senhores…
(…) O orador interrompido parou com ar digno. (…)
- Meus senhores, ao pedir a vossa atenção – recomeçou Chigaliov – e, como verão mais adiante, ao pedir também a vossa ajuda num ponto de primacial importância, devo fazer uma introdução.
(…) Chigaliov recomeçou:
- Tendo consagrado a minha energia ao estudo da organização social da futura sociedade que há-de substituir a presente, cheguei à convicção de que todos os criadores de sistemas sociais, desde os tempos mais antigos até ao nosso ano de 187…, eram uns sonhadores, uns contadores de fábulas e uns tontos que a si mesmo se contradiziam, que não percebiam nada das ciências naturais, incluindo a do estranho animal que se chama homem. Platão, Rousseau, Fourier, as colunas de alumínio, tudo isso talvez sirva para os pardais, mas não para a sociedade humana. Mas como a futura forma social é necessária precisamente agora, quando todos nós nos preparamos finalmente para agir, para não continuarmos a matutar, proponho o meu próprio sistema de organização do mundo. Aqui está! – e bateu com a mão num caderno – Queria expor o meu livro a esta assembleia da maneira mais sucinta possível; mas vejo que é necessário acrescentar ainda muitos esclarecimentos verbais e, por isso, toda a exposição exigirá pelo menos umas dez sessões, segundo o número de capítulos do meu livro. (Ouviram-se risos) Além disso, desde já declaro que o meu sistema não está concluído. (Mais risos.) Enredei-me nos meus próprios dados e a minha conclusão contradiz de modo directo a ideia inicial em que me baseio. Partindo de uma liberdade ilimitada, termino num ilimitado despotismo. Acrescentarei no entanto que, além da minha fórmula de solução social, não pode haver nenhuma outra.
Os risos aumentavam cada vez mais, mas eram sobretudo os convidados jovens e, por assim dizer, não iniciados que se riam. Os rostos da dona da casa, de Lipútin e do professor coxo exprimiam um certo enfado.
- Se o senhor não consegue compor o seu sistema e chegou ao desespero, o que podemos nós fazer? – observou com cautela um dos oficiais.
- Tem razão, senhor oficial – Chigaliov virou-se bruscamente para ele – Tanto mais que usou a palavra «desespero». Sim, cheguei ao desespero; no entanto, nada pode substituir aquilo que está exposto no meu livro e não há outra saída; ninguém pode inventar mais nada. Por isso me apresso, sem perder mais tempo, a pedir a esta sociedade que, depois de ouvir a exposição do meu livro ao longo de dez sessões, exprima a sua opinião. Mas se os membros não quiserem ouvir-me, separemo-nos já desde o princípio: os homens a ocuparem-se ao serviço do Estado, as mulheres para as suas cozinhas porque, ao rejeitar o meu livro, não encontrarão outra saída. Ne-nhu-ma! E, ao deixarem passar o tempo, prejudicam-se a si mesmos, porque mais tarde terão de coltar inevitavelmente a isto mesmo.
Gerou-se um certo bulício: «O que lhe deu, é louco ou quê?» - perguntavam algumas vozes.
- Todo o problema está, portanto, no desespero de Chigaliov – concluiu Liámchin – e a questão essencial é: ele deve estar desesperado ou não?
- O desespero de Chigaliov é uma questão pessoal – declarou o colegial.
- Proponho que se vote em que medida o desespero de Chigaliov afecta a causa comum e ao mesmo tempo se devemos ouvi-lo ou não – decidiu alegremente um oficial.
- O problema aqui não é esse – interveio finalmente o professor coxo. Em geral falava como que com um sorriso irónico, de modo que era difícil perceber se falava com sinceridade ou se estava a brincar – O problema aqui, meus senhores, não é esse. O senhor Chigaliov está muito seriamente devotado à sua tarefa e ao mesmo tempo é demasiado modesto. Conheço o livro dele. Propõe, como solução final o problema, a divisão da humanidade em duas partes desiguais. Uma décima parte obtém a liberdade pessoal e um poder ilimitado sobre os restantes nove décimos. Estes últimos devem perder a sua personalidade e transformar-se numa espécie de rebanho e, com uma submissão infinita, atingir por uma série de transfigurações a inocência primitiva, uma espécie de paraíso primitivo, embora trabalhando. As medidas propostas pelo autor para privar de vontade nove décimos da humanidade e os transformar num rebanho, através da reeducação de gerações inteiras, são extremamente notáveis, fundadas em dados da Natureza e muito lógicas. Podemos não concordar com algumas conclusões, mas é difícil duvidar da inteligência e dos conhecimentos do autor. É pena que a condição dos dez serões seja completamente incompatível com as circunstâncias, pois poderíamos ouvir muitas coisas curiosas.
- Será possível que esteja a falar a sério? – perguntou madame Virguínskaia ao professor coxo, até um pouco alarmada – Então este homem, não sabendo o que fazer com as pessoas, reduz nove décimos delas à escravidão? Eu já suspeitava dele há muito. (…)
- E, além disso, trabalhar para os aristocratas e obedecer-lhes como a deuses é uma infâmia! – observou a estudante, furiosa.
- Eu proponho não uma infâmia, mas o paraíso terrestre, e não pode haver outro na terra – conclui Chigaliov com autoridade.
- Pois eu, em vez do paraíso, – gritou Liámchin – pegaria nesses nove décimos da humanidade, se não houvesse mais nada a fazer com eles, fazia-os explodir e deixava apenas um punhado de pessoas cultas, que começariam a viver de maneira científica.
- Só um palhaço pode falar assim! – inflamou-se a estudante.
- Ele é um palhaço, mas útil – murmurou-lhe madame Virguínskaia.
- É possível que essa fosse a melhor solução do problema! – disse ardentemente Chigaliov, virando-se para Liámchin – Por certo não sabe a coisa profunda que conseguiu exprimir, senhor jovial. Mas como a sua ideia é quase impossível de aplicar, devemos limitar-nos ao paraíso terrestre, já que assim lhe chamamos.
- Mas que grande absurdo! – deixou Verkhovenski escapar, como que sem querer. (…)
- Não foi por causa de Chigaliov que eu disse que era um absurdo – balbuciou Verkhovenski – Vêem, meus senhores, - continuou, erguendo um pouco os olhos – em minha opinião, todos esses livros, Fourier, Cabet, esse «direito ao trabalho», esse chigaliovismo, é tudo uma espécie de romances que se podem escrever às centenas de milhar. Um passatempo estético. Compreendo que aqui nesta cidadezinha os senhores se entediem e, por isso, se lancem ao papel escrito.
- Permita-me, - disse o coxo remexendo-se na cadeira – embora nós sejamos provincianos e, portanto, dignos de piedade, sabemos, no entanto, que até agora não aconteceu no mundo nada de novo em que lamentássemos não ter reparado. E propõem-nos, através de uma folhas feitas no estrangeiro, que nos unamos o formemos círculos com o único objectivo da destruição universal, a pretexto de que, por mais que tratemos o mundo, nunca conseguiremos curá-lo mas, se cortarmos cem milhões de cabeças e assim ficarmos mais aliviados, podemos mais facilmente saltar para cima da fossa. É uma bela ideia, sem dúvida, mas pelo menos tão inconciliável com a realidade como o «chigaliovismo» a que o senhor agora mesmo se referiu com tanto desprezo. (…)
- Cortar cem milhões de cabeças é tão difícil de concretizar como transformar o mundo pela propaganda. Talvez seja mesmo mais difícil, em especial na Rússia – arriscou de novo Lipútin.

O suicídio como liberdade e procura de Deus (excerto de Os Demónios, de Dostoiévski)

13/10/2013

*Excerto retirado da edição da Relógio D'Água, de 2010, com tradução de António Pescada.
*Mais sobre o livro aqui.

Ilustração de Mikhail Vrubel, intitulada Cabeça do Demónio. Imagem daqui.

O diálogo, nesta parte, é entre Kiríllov, que se quer matar por convicção, e o narrador. 

     - Aquilo das cabeças foi inventado por ele, tirado de algum livro, foi o primeiro a falar-me disso, e percebe mal; e eu apenas procuro as razões por que as pessoas não ousam matar-se; nada mais. E isso não importa.
     - Como não ousam? Pois há assim tão poucos suicídios?
     - Muito poucos.
     - Acha realmente?
     Não respondeu. Levantou-se, pensativo, e pôs-se a caminhar para trás e para a frente.
     - Em sua opinião, o que é que impede as pessoas de se suicidarem? – perguntei.
     - Ele olhou-me com ar distraído, como se tentasse lembrar-se de que estávamos nós a falar.
     - Eu… eu ainda sei muito pouco… há dois preconceitos que as impedem, duas coisas; apenas duas, uma muito pequena e outra muito grande. Mas a pequena também é muito grande.
     - Qual é então a pequena?
     - A dor.
     - A dor? Será assim tão importante… neste caso?
     - É a mais importante. Há dois géneros: aqueles que se matam por uma grande tristeza, ou por raiva, ou loucura, ou tanto faz… esses de repente. Esses pensam pouco na dor, fazem-no de repente. E há os que o fazem por raciocínio: esses pensam muito.
     - Mas há os que se matam por raciocínio?
     - Muitos. Se não houvesse preconceito, seriam mais; muitíssimos mais; todos.
     - Todos, realmente?
     Ele não respondeu.
     - Mas não haverá maneiras de morrer sem dor?
     - Imagine – disse ele, parando à minha frente –, imagine uma pedra do tamanho de uma casa grande; a pedra está pendurada, o senhor debaixo dela; se a pedra cai em cima de si, na cabeça, sentirá dor?
     - Uma pedra do tamanho de uma casa? Claro que mete medo.
     - Não falo de medo; terá dor?
     - Uma pedra como uma montanha, de um milhão de arrobas? É claro que não causaria dor.
     - Mas ponha-se realmente debaixo dela, e enquanto ela estiver pendurada, terá muito medo de que doa. Qualquer maior cientista, o maior médico, todos, todos terão muito medo. Cada qual saberá que não dói, e cada qual terá muito medo de que doa.
     - Bem, e qual é a segunda causa, a grande?
     - O outro mundo.
     - Quer dizer o castigo?
     - Isso tanto faz. O outro mundo, só o outro mundo.
     - Mas não há ateus, que não acreditam nada no outro mundo?
     De novo não deu resposta.
     - O senhor julga talvez por si mesmo?
     - Ninguém pode julgar senão por si mesmo – disse ele, corando – Toda a liberdade será quando for indiferente viver ou não viver. É o objectivo de tudo.
     - Objectivo? Mas então ninguém quererá talvez viver?
     - Ninguém – disse ele resolutamente.
     - O homem tem medo da morte, porque ama a vida, é assim que eu entendo – observei – e é assim que manda a Natureza.
     - Isso é infâmia e nisso está todo o engano! – os seus olhos cintilaram – Vida é dor, vida é medo, e o homem é infeliz. Agora é tudo dor e medo. Agora o homem ama a vida, porque ama dor e medo. Assim o fizeram. Agora a vida dá-se pela dor e o medo, e nisso está todo o engano. Agora o homem ainda não é o que deve ser. Haverá um homem novo, feliz e orgulhoso, para o qual será igual viver ou não viver, esse será o homem novo. Quem vencer a dor e o medo será ele mesmo Deus. E aquele Deus não haverá.
     - Portanto, em sua opinião, aquele Deus existe?
     - Não existe, mas existe. Na pedra não há dor, mas no medo da pedra há dor. Deus é a dor do medo da morte. Quem vencer a dor e o medo será Deus. Então, nova vida, novo homem, tudo novo… Então dividirão a história em duas partes: do gorila até ao aniquilamento de Deus e do aniquilamento de Deus até…
     - Até ao gorila?
     - …Até à mudança física da terra e do homem. O homem será Deus e mudará fisicamente. E o mundo também mudará, e os actos mudarão, e os pensamentos, e os sentimentos. Que lhe parece, o homem mudará então fisicamente?
     - Se for indiferente viver ou não viver, então todos se matarão e essa será talvez a mudança.
     - Isso não importa. Matarão o engano. Quem quiser principal liberdade deve ser capaz de se matar. Quem for capaz de se matar descobriu o segredo do engano. Para lá disso não há liberdade; aqui está tudo, para além não há nada. Quem for capaz de se matar é Deus. Agora, qualquer um pode fazer que não haja Deus e não haja nada. Mas ainda ninguém o fez.
     - Houve milhões de suicidas.
     - Mas não por isso, sempre por medo e não por isso. Não para matar o medo. Quem se mata para matar o medo, esse torna-se logo Deus.


Os Demónios, de Dostoiévski

06/10/2013

Representação de Os Demónios (adaptação/produção de Peter Stein). Imagem daqui.



«Ter uma ideia não é difícil, o difícil é fazer um plano. Eu pouco percebo e não sou muito inteligente, apenas persigo aquilo que para mim é mais claro.»

1. Os Demónios retrata as acções de um grupo revolucionário que tenciona mudar o sistema e tomar o poder, sendo necessário, para o efeito, a união e a confiança que os membros do grupo têm entre si. A determinada altura, essa união é posta à prova através do assassinato de um dos membros desse grupo (que queria sair). A questão do livro é precisamente essa: o quão longe vai o ser humano na perseguição dos seus ideais?, quanto mal se pode fazer para atingir o bem? Apesar de ser bastante realista, o livro está repleto de existencialismo, precisamente para responder àquelas questões. Naturalmente, a resposta é fazer o bem para atingir o bem – nada mais que isso, ou as consequências serão terríveis.

2. O tema do livro pode ser considerado como político, porém a política não é a sua questão principal. Para além de, obviamente, ser um retrato da Rússia do século XIX e do seu descontentamento para com as suas instituições governamentais (porque se prepararia então uma revolução?), o livro trata sobretudo do que tratam os outros livros do autor: a mente humana. Neste caso, como as personagens lidam com um ideal mal-empregue e com os seus efeitos (assassinato, suicídio…). Assim sendo, a temática política serve como mote para o carácter existencialista – e realista – da obra.

3. Todas as nossas acções são consequências dos nossos pensamentos – conscientemente ou não, sendo esta a premissa que se retira de qualquer livro de Dostoiévski, que analisa a complexidade da mente humana. Os Demónios é mais um exemplo, presente mesmo no próprio título. Traduzido tanto como Os Possessos ou Os Demónios, alegando os tradutores experientes que o segundo título é o mais correcto, o próprio teor do livro parece apontar para as duas hipóteses como quase iguais: resumidamente, os demónios são os ideais mal-empregues que possuem uns pobres homens (os possessos). Nesta obra, o ideal possui, corrói a mente humana, fazendo o autor a analogia com os demónios que se apoderam de algumas pessoas, sendo que os possessos não controlam as suas acções – tal como as personagens parecem não controlar as suas nem ouvir o bom senso.

4. Apesar de possessas pelos ideais, as personagens principais não podem ser consideradas loucas, o que comprova a última passagem do livro, sobre o suicídio de Stavróguin: «Os nossos médicos, ao autopsiarem o corpo, rejeitaram por completo e com insistência a hipótese de loucura»; aliás, as personagens têm consciência do que fazem, podendo não ter a consciência da dimensão das suas acções. Afinal, as personagens são racionais, têm um objectivo e fazem por concretizá-lo, chegando a ser metódicas – acreditam, inclusive, que o que fazem é pelo bem-comum, em suma, um mal que vem por bem.

5. A estética da obra é a típica de Dostoiévski: um realismo/existencialismo, isto é, um realismo que parte do interior das personagens. Neste caso, o autor está interessado em mostrar as consequências daqueles ideais desenfreados (a parte existencialista da obra) através do teor político e social (a parte realista). E, tal como outros livros de Dostoiévski, este é fácil de ser lido, mas para compreendê-lo na totalidade é necessário um certo nível de experiência literária.


Links de interesse sobre o livro:
O Problema do Mal em Dostoiévski: destino trágico da Liberdade humana, conferência do XI Congresso Internacional da abralic.
Os Demônios de Dostoiévski: primeira parte e última parte, na Verbologia.
Tragic Rites in Dostoyevsky's The Possessed, artigo de Joyce Carol Oates (em inglês) presente no site da Universidade de São Francisco (EUA).

Entusiasmo pela leitura

26/03/2012



Parte de um capítulo de Netotchka, de Dostoiévski. Vejam aqui mais pormenores sobre este romance inacabado.

(…) Um dia, depois de jantar, encontrei no chão a chave da biblioteca; a curiosidade apossou-se de mim, abri e entrei.

Era uma vasta sala, com muita luz, guarnecida de grandes estantes envidraçadas, cheias de livros. (…) Até então só tivera na minha mãe livros escolhidos com o máximo cuidado. Fácil era supor que me ocultassem muita coisa. Este o motivo porque, tomada de uma irresistível curiosidade, tremendo de alegria e susto, abri uma das estantes e tirei o primeiro livro que estava ao meu alcance: era um romance.

(…) Tive o cuidado de só entrar na biblioteca oito dias depois de me haver assegurado de que não havia suspeita alguma, e durante a ausência do secretário.

Desde então, dediquei-me à leitura com furor, era uma paixão. Todas as minhas aspirações, todos os entusiasmos da minha adolescência, que muito cedo haviam desenvolvido o meu espírito, tomavam um rumo novo que supos por muito tempo a verdadeira saída da minha situação.

Depressa fiquei tão fascinada, a minha imaginação estendeu-se tão largamente, que me pareceu esquecer o mundo exterior.

A sorte parecia deter-me no limiar da nova vida que eu tão fortemente desejava penetrar e com qual sonhava dia e noite. Mas, antes de me deixar seguir por este caminho desconhecido, o destino impelia-me até uma altura de onde me mostrava num mágico panorama, numa atraente luminosa perspectiva, todo o meu futuro. Devia viver esse futuro depois de o ter apreendido nos livros e avistado nos meus sonhos, nas minhas esperanças, nos meus apaixonados enlevos, nas doces emoções da minha alma juvenil.

Li ao acaso. O acaso serviu-me bem para os dois primeiros volumes; depois, a minha existência fora tão nobre, tão austera, que eu não podia ser solicitada por leituras maliciosas. O meu instinto de criança, a minha mocidade e todo o meu passado protegiam-me. A consciência tinha como que iluminado de uma só vez toda a minha vida. De facto, lendo uma página, parecia ter lido todas. E como não ir até ao esquecimento do presente, isolada como estava da realidade, quando, defronte de mim, em cada livro se incarnavam as leis do mesmo destino – o mesmo espírito de aventura que paira sobre a vida dos homens? Esta lei de que eu suspeitava, tratei, com todas as forças e com todas as faculdades sobreexcitadas da minha imaginação, de adivinhá-la.

Dia a dia se fortalecia cada vez mais na minha alma a esperança, e o meu entusiasmo pelo futuro se tornava mais violento. Queria viver essa vida que descortinava nas minhas leituras e que me aparecia revestida de todos os esplendores da arte, de todas as seduções da poesia. Mas, como já disse, a minha imaginação tinha grande ascendente sobre a minha impaciência; só era animosa em sonhos, pois, na realidade, o futuro aterrorizava-me. Num tácito acordo com a consciência, resolvi que era preciso contentar-me com a descrição destas belas quimeras até ao dia em que pudesse realizá-las no mundo aleatório e romanesco onde só entrevia alegria e sublimidade; a fatalidade, quando a admitia, representava apenas um papel passivo, passageiro e necessário para fazer suaves contrastes, para originar súbitas mudanças de destinos, evoluindo para os desenlaces felizes, nos quais, invariavelmente, acabavam todas essas histórias.

E não será isso que a leitura nos faz? Levar-nos a mundos fantasiosos e, consequentemente, melhores, distanciar-nos da miserável realidade e fazer-nos esquecer das nossas tristezas? Apenas quem lê é quem sabe disto...

Submissa, de Dostoiévski

30/06/2011

É uma novela, cujo narrador e personagem principal é esquizofrénico, e conta-nos a história de como a sua mulher morreu, que agora está em cima da mesa, à espera de uma urna.

Conheceu-a porque ela ia à sua casa de penhores, para conseguir pagar um anúncio num jornal.  Depois de conversarem um pouco, pediu-a em casamento, e como ela vivia muito mal, porque era orfã vivia com duas tias que a tratavam mal, aceitou.

Ela tinha 16 anos, ele 42. No principio no casamento, o narrador esclareceu bem as coisas: ela deveria, tal como ele, trabalhar na casa de penhores. E ela, contente, ainda tentava falar com ele, mas ele praticamente não respondia. Tinha o objectivo de a deixar submissa, para que ela o adorasse. No entanto, sendo ela uma adolescente, ao ver como ele queria impor o silêncio entre os dois, começou a ódia-lo. E discutiam, com silêncio. Raramente falavam um para o outro, a não ser quando a mulher o tentava atacar.

Depois de muitas lutas, a rapariga adoeceu. Ele não faz nada, até que um dia, quando estava a trabalhar, ouvi-a a cantar. E nesse momento percebeu como ela era importante, e foi ter com ela, beijando-lhe os pés e pedindo para falarem de qualquer coisa. Ela assustada, ia sofrendo outro ataque, e ele deitou-a, para se acalmar.

Quando tudo parecia bem, um dia em que ele não estava em casa, a rapariga estava a olhar para um ídolo que tinha sido penhorado por uma mulher. Estava a olhar para ele, e depois olhou para a janela a sorrir. A empregada perguntou o que se passava, e resposta foi "nada". Virou costas, mas achando estranho, virou-se para trás, e viu a rapariga a saltar da janela, agarrada ao ídolo. Quando o narrador chegou a casa, viu uma pequena multidão, e aproximou-se. Viu a rapariga morta com o ídolo.

Esta novela tem vários nomes traduzidos em português: Submissa, Uma Criatura Gentil ou A Dócil.

Apesar de haver diálogo, é tudo nos descrito com a narração da personagem principal, exitindo pelo meio os pensamentos de culpa, de remorsos, de desespero desta. O livro acaba com a frase:

"Os sapatinhos dela estão ao pé da cama, como à espera dela... Digam, a sério, quando amanhã a levarem, o que será de mim?"

Noites Brancas, de Dostoievsky

02/05/2011

O narrador, um jovem sonhador e solitário,  estava um dia a dar o seu passeio rotineiro, quando viu uma jovem a chorar, na ponte de Niéva. Como ela era muito bonita, segue-a e ajuda-a quando ela é atacada por um assaltante. Então, começaram a falar um com o outro. Durante quatro dias, encontraram-se sempre no mesmo sítio, para falarem, e O narrador conta a sua história a Nástienhka (o nome da jovem).

A sua vida (a do narrador) é muito aborrecida, sem amigos, e este sente que todos que conhece os abandonam, por isso preenche-a sonhando. Conta isto a Nástienhka de uma maneira tão elaborada que esta fica muito espantada, cheia de pena dele.


Depois a sua jovem amiga conta a sua história: ela vive com a avó porque os seus morrerem. A sua avó é cega, e por isso, como ser saber onde a sua neta está, juntou a sua saia à de Nástienhka com um alfinete de ama.  Esta, para combater o aborrecimento, lia romances. Até que um hóspede decidiu alugar um quarto da casa, e vê Nástienhka pela primeira vez. Depois de se conhecerem um bocadinho melhor, o inquilino promete que quando voltar de uma viagem de negócios, daí a um ano, casarse-ão os dois, e encontrar-se-iam na ponte Niéva. Tinha passado um ano, e Nástienhka sabia que ele estava na cidade, e ainda não a tinha vindo ver. Por isso é que Nástienhka estava a chorar na ponte.

O narrador, ao ouvir isto, diz à sua amada (entretanto ele paixonou-se por ela) para escrever uma carta para o inquilino, dizendo que se ainda tinha algum interessa nela, deveria ir ter com ela à ponte no dia seguinte.

Assim fizeram. Esperaram os dois (o narrador mais Nástienska), mas o inquilino não apareceu. Desesperada, a chorar, Nástienhka atira-se para os braços do narrador, e diz que o ama. Então, aparece o inquilino. Um momento de silêncio. Nástienhka deixa o narrador e corre para o inquilino. Vão-se os dois embora. O narrador fica sozinho, como sempre esteve toda a sua vida.

Voltou ao seu quarto escuro, à sua vida triste e solitária. Até que recebeu uma carta de Nástienska. A carta pedia desculpas, e que se pudesse, o amaria a ele, não ao inquilino.

Depois de ler a carta, tão comevedora, o narrador começa a meditar. A carta tinha valido a pena. Aqueles quatros dias de alegria bastaram. Porque, como ele próprio diz, "não basta um minuto de felicidade para encher a vida de um homem?".

Digo-vos, não costumo ler muitos romances. Mas este, adorei. Porque é triste. E porque apesar da sua infelicidade, ele consegui ter esperança.

O romance é pequeno, e percebe-se bem. Penso que a parte mais difícil de perceber é a autobiografia do autor, mas com um bocadinho de esforço, chega-se lá. O romance está divido em seis capitulos, pequenos.

Aqui está a carta que Nástienhka escreveu para o narrador:



"Peço-lhe perdão!
Suplico-lhe de joelhos que me perdoe. Enganei-o e enganei-me a mim própria. Era um sonho, um fantasma... Hoje sofri por si mil mortes. Perdão! Peço-lhe perdão!
Não me censure, pois não mudei fosse o que fosse quanto a si. Disse-lhe que o amaria e continuo a amá-lo, faço mais do que amá-lo. Meu Deus, se pudesse amar-vos a ambos ao mesmo tempo! Se o senhor fosse ele! Se ele fosse o senhor!
Deus é testemunha daquilo que eu gostaria de fazer agora por si! Sei que está mergulhado no acabrunhamento e no desgosto. Causei-lhe mal, mas, quando amamos, lembramo­-mos das ofensas? Ora, o senhor ama-me, não é verdade?
Obrigada, sim, obrigada por esse amor! Ele está impresso na minha memória como um sonho delicioso, daqueles que recordamos muito tempo depois de termos já despertado; porque recordarei eternamente o instante em que tão fraternal­mente o senhor me abriu o seu coração e em que tão magnanimamente aceitou a oferta do meu coração magoado, para o conservar, acalentar e proteger... Se me perdoar, a sua recorda­ção será erigida por mim num sentimento eterno e nobre que nunca mais se apagará da minha alma... Conservarei essa recordação, ser-lhe-ei fiel, não o trairei, não trairei o meu coração: ele é demasiado constante para que isso possa suceder. Ainda ontem, como viu, ele voltou tão depressa à posse daquele a quem para sempre pertence.
Voltaremos a encontrar-nos, o senhor virá a nossa casa, não nos abandonará, será perpetuamente meu amigo, meu irmão... E quando me vir, dar-me-á a sua mão... sim?
Dar-ma-á, pois ter-me-á perdoado, não é verdade? Continua­rá a amar-me como até aqui?
Sim, ame-me, não me abandone, pois eu amo-o de tal maneira neste instante, porque sou digna do seu amor, porque eu o mereço.., meu querida amigo! Casamos na próxima semana. Ele continua apaixonado, nunca me esqueceu... Não se zangue por lhe falar dele. Quero que o conheça: será amigo dele, não é verdade?

Perdoe-me! Recorde e ame a sua

Nástienhka"

Enfim, recomendo.

*O romance chama-se Noites Brancas porque passa-se em quatro noites, entre Maio e Junho. Durante estes meses, em St. Petesburgo, as noites ficam claras, sendo chamadas de noites brancas.

A Voz Subterrânea, de Fiódor Dostoiévski

20/03/2011



Acabava por acostumar-me a tudo, ou melhor, consentia voluntariamente em suportar tudo.

Dostoiévski é um dos maiores nomes literários russos e do movimento estético realista. Não será necessário, certamente, fazer qualquer tipo de apresentação mais longa do escritor, até porque basta-nos ir ao Google…

A Voz Subterrânea, editado em 1864, é um livro que tem quase todas as características de Dostoiévski: a personagem principal mentalmente desequilibrada, com os seus medos, angústias, paranóias, ansiedades, rejeições, com uma certa dificuldade de adaptação; o livro conta também com a descrição da sociedade russa e respectiva crítica (feita pela própria personagem que não se adapta); e conta, ainda, com uma certa aversão à chamada Providência (o destino que por norma desgraça os homens), para além dos aspectos técnicos, como uma escrita e linguagem simples, por exemplo.
Não só me enganei em tornar-me mau, como também não cheguei a ser nada; nem mau, nem bom, nem infame, nem herói, nem pigmeu. O homem tem a obrigação moral de ser uma nulidade.
Esta história conta as memórias do narrador, explicando o porquê de ele ser má pessoa, estar sozinho e não se dar bem com os outros seres humanos. Acha-se mais inteligente que os outros, daí não gostar de ninguém. Não suporta as pessoas, mas faz de tudo para estar com elas. Move-se sempre por impulsos, que vencem a razão, acabando sempre por se arrepender e sofrer.

O livro está dividido em duas partes: O Subterrâneo, com 11 capítulos, e A Propósito da Neve Derretida, com 9. A primeira parte tem somente as considerações do narrador sobre a sua vida, a sociedade, a consciência, os indivíduos, a vingança, a raiva, o sofrimento, a solidão. Toda esta primeira parte demonstra o quão paradoxal é o narrador, que diz e depois desdiz, que faz mas não quer fazer, que sente mas nega que o sente – tudo isto demonstra a luta entre o eu subterrâneo e o eu racional, que também é demonstrado na segunda parte desta obra.

A segunda parte trata, efectivamente, das memórias e relata-nos dois episódios: o do jantar que o narrador teve com os seus antigos colegas e da sua breve relação com uma prostituta, logo após esse mesmo jantar. Claro está que o narrador não quis ir ao jantar nem quis relacionar-se com a prostituta, mas acabou por fazer as duas coisas. No jantar foi humilhado pelos seus antigos colegas como o tinha sido no tempo da escola. Quis ter uma relação séria com a prostituta mas deitou tudo a perder por causa dos seus impulsos.

Deixem-nos sós, sem livros, e logo nos perderemos e confundiremos, sem saber o que fazer nem que pensar, sem saber o que se deve amar nem o que se deve aborrecer; ignorando igualmente o que merece estima e o que apenas deve inspirar desprezo. Até os próprios semelhantes se nos tornariam insuportáveis; envergonhar-nos-íamos do homem autêntico, daquele que tem carne e sangue; consideraríamos esse semelhante como uma desonra. Empenhamo-nos em ser um género de homem que nunca existiu. Nascemos mortos, há muito tempo que nascemos de pais que já não vivem, e isso agrada-nos cada vez mais. Tomamos-lhe o gosto.

A voz do subterrâneo, ou simplesmente subterrâneo, é o nosso eu que a sociedade reprime com as suas normas, regras e valores. É o nosso eu enlouquecido, o nosso eu furioso por não sair do subterrâneo. É o que fazemos por impulsos.

Este é um livro essencial para entender a obra de Dostoiévski, não apenas por ter as características principais do autor, mas também por complementar, por assim dizer, as suas outras obras.

*Imagem: quadro de Munch

O Jogador, de Fiódor Dostoiévski

22/07/2010


Um dos meus livros preferidos. Abaixo segue-se uma ficha de leitura do mesmo, com alguns aspectos muito técnicos.

A OBRA
Ano: 1866

CLASSIFICAÇÃO DA OBRA

Texto: Literário
Prova textual: “Entretanto, ontem não proferiu uma única palavra sobre o jogo durante todo o dia. No geral, evitava falar comigo.” – página 23

Género literário: Narrativo
Prova textual: “Voltei, finamente, após duas semanas de ausência. A nossa gente há três dias que está em Roletenburgo” – página 7

Tema: Ao mesmo tempo de outra época (no que toca à decadência da sociedade russa) e actual (no que se refere à decadência humana/psicológica)

LINGUAGEM DA OBRA

Vocabulário: Fácil e acessível
Prova textual: “Fixou em mim um olhar longo e penetrante, como se quisesse trespassar-me com os olhos” – página 134

Registo de língua: Corrente
Prova textual: “A avó observava tudo isso de longe, com uma curiosidade louca” – página 84

Construção sintáctica: Complexa
Prova textual: “É verdade que as relações deles têm sido, desde sempre, um enigma para mim, desde que os conheço; nos últimos dias, porém, reparei que Polina tinha por ele grande repugnância, e mesmo desprezo; quanto ao francês, nem olha para ela, é até mal educado com Polina” – página 58

Uso predominante de: Coordenação e subordinação
Prova textual: “Estou cá há pouco tempo, mas já tive tempo de ver o que indigna a minha natureza tártara.” – página 31
“Juro por Deus que não quero virtudes dessas!” – página 31

Utilização de: Narração, descrição e diálogo
Prova textual: “Toda a minha explicação, claro, era verosímil. Enquanto falava ia olhando para Polina, mas não conseguia ler nada na cara dela.” – página 30
“Ronda os 25 anos, é alta e espadaúda, de ombros quadrados” – página 26
“- Não faço ideia – respondi.
- Como? Nem isso sabe? – exclamou espantadíssimo” – página 27

SÍNTESE DA OBRA*
«Passado num ambiente de casinos, em Roletenburgo, Alemanha, a história desenvolve-se em torno de um jovem chamado Aleksei Ivánovitch que, embora portador de um carácter vivo e de um forte sentido crítico em relação ao mundo que o rodeia, não tem quaisquer objectivos na vida. Ao trabalhar num hotel, como preceptor, para um general cuja família é sua conhecida, Ivánovitch apercebe-se de que algo vai mal quando se depara com a presença de Mlle. Blache e Des Grieux, dois misteriosos franceses que mantêm relação de proximidade “misteriosa” com o general e a sua enteada Polina Aleksandrovna. Certo dia, Polina solicita a Aleksei que vá jogar por ela na roleta, exigindo-lhe que lhe traga dinheiro por o necessitar urgentemente. Apesar do estranho pedido, o amor de Ivánovitch por Polina impede-o de a questionar quanto à necessidade do dinheiro, aceitando jogar, pela primeira vez na sua vida, num casino. A sua obsessão pelo jogo inicia-se aqui.

Mantendo diversos diálogos com o seu amigo inglês Mr. Astley, também hospedado no hotel, Aleksei Ivánovitch vai, aos poucos, apercebendo-se de estranhas coincidências entre a necessidade de dinheiro por parte do general e a presença dos franceses em Roletemburgo. Aleksei descobre, então, que o general havia contraído uma imensa dívida para com Des Grieux, sendo a sua única salvação esperar pela morte de sua avó para receber a elevada quantia da herança. O plano parece correr bem até que, sem que nada o fizesse prever, a avó surge, doente, em Roletenburgo, causando de imediato o caos no hotel. Solicitando a companhia de Aleksei Ivánovitch, e pedindo os seus conselhos, a avó resolve gastar propositadamente toda a sua fortuna nos casinos, impedindo, assim, que o general herde grandes quantias do seu dinheiro.

Após a perda do dinheiro, as fraquezas mentais de todas as personagens entram em erupção, originando as mais drásticas modificações na história: Des Grieux desaparece num ápice e nunca mais é visto; o general falece de loucura. Ivánovitch, obcecado com a ideia de poder viver junto de sua Polina, num impulso de demência, aposta tudo na roleta e ganha uma fortuna incalculável. Contudo, apesar das boas intenções de Aleksei, Polina rejeita tudo e foge para o desconhecido com Mr. Astley. Psicologicamente rendido, Aleksei sente-se perdido e aceita, sem preocupação, gastar toda a sua fortuna com Mlle. Blanche, com quem parte para Paris, e não volta vê-la após um mês. Segue-se para Ivánovitch um período no qual Dostoiévski, também ele, em tempos, um jogador compulsivo, exprime com toda a profundidade psicológica como é a vida de um jogador: viver do jogo, gastando tudo despreocupadamente para, posteriormente, voltar a jogar.

Anos mais tarde, após ter estado preso, Ivánovitch encontra Mr. Astley na Alemanha, que afirma vir a pedido de Polina. Este revela o amor que Aleksandrovna sentia por Aleksei, afirmando que o diz sem quaisquer receios por ter a certeza que Aleksei é um homem acabado. Astley oferece a Ivánovitch uma pequena quantia que lhe permite viajar até à Suíça, onde se encontra Polina. A história termina com um conflito interior de Aleksei, indeciso entre apostar aquela quantia na roleta ou correr de imediato para os braços da sua amada.»

APRECIAÇÃO CRÍTICA

Parte mais interessante da obra: O jogo em si. O fascínio e os males que causa, que o autor descreve duma maneira fantástica (não nos esqueçamos que o próprio já foi viciado no jogo).

Registo de uma frase marcante: “Tudo isto são palavras, palavras e mais palavras, quando o que é preciso é agir!” (página 164) O que está dito na frase é uma característica do ser humano (e que sempre será): queremos mudança, quer a nível pessoal, profissional ou outro, mas ficamos à espera que essa mudança aconteça do nada. Acomodamo-nos, por assim dizer, e temos que mudar este nosso aspecto.

Valeu a pena ler esta obra porque: Vale sempre a pena ler uma obra de cariz realista, uma vez que o realismo retrata uma época (neste caso, o século XIX). Dostoiévski, apesar de se inclinar mais para a perturbação dos sentimentos humanos, bem como os maus hábitos, faz disso uma espécie de generalização, ou seja, o autor “pega” em algumas personagens (mais concretamente nos íntimo das personagens) e transporta para o geral a essência delas para fazer uma caracterização/análise da sociedade.

Esta obra fez-me reflectir sobre: O jogo. Mais concretamente, os efeitos que o jogo tem no ser humano e as suas consequências. Nunca é demais relembrar que o próprio autor da obra foi viciado no jogo, pelo que transportou para a obra a sua experiência.
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*Resumo retirado dum site da internet, do qual não me lembro - se alguém souber a fonte original, por favor avise.
**Na imagem: Fiódor Dostoiévski
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